Antes de o ciclo começar, calcule três números: quanto o preço pode cair, quanto a colheita pode cair e quanto os dois podem cair no mesmo ano antes de o ciclo parar de cobrir o custo. Cada uma dessas distâncias é a folga do ciclo. Num ciclo que espera R$ 900.000 de receita e custa R$ 720.000, o preço pode cair 20%, a colheita 23,1%, e os dois juntos só 11,4%. A folga combinada fica perto da metade das outras duas, e é o primeiro número a anotar. A calculadora de resiliência a choque faz as três contas.
Cálculo da Rurivia a partir da receita e do custo esperados de uma fazenda de exemplo, rodados pela calculadora de resiliência a choque.
Depois, compare essa folga com o quanto o preço e a colheita dessa fazenda costumam variar de um ano para o outro. No exemplo, oito anos de registro dão uma variação típica, o quanto um ano normal fica longe da média, de 17,4% no preço e de 8,9% na produtividade. O índice de resiliência da calculadora pergunta que fração dessas duas variações, chegando no mesmo ano, o ciclo aguenta antes de o lucro acabar. Aqui a resposta é 0,84, menos de uma: o preço 14,6% abaixo (0,84 de 17,4) e a colheita 7,5% abaixo (0,84 de 8,9) ao mesmo tempo consomem a margem inteira, e cada uma dessas quedas é menor que uma variação típica.
Muita fazenda se planeja do jeito contrário. Queda de preço parece problema de mercado e seca parece problema de clima, então cada uma ganha a sua proteção, e muitas vezes uma delas fica sem nenhuma. O ano que machuca é aquele em que as duas chegam juntas.
Por que a folga de colheita é maior que a de preço?
Porque colher menos também custa menos, e vender mais barato não.
Quando o preço cai, a receita cai e o custo continua onde estava. Uma cotação ruim na colheita não muda o que a semente, o adubo e o diesel já custaram. Por isso a folga de preço é a conta mais simples: divida o lucro pela receita. No exemplo, R$ 180.000 sobre R$ 900.000 dá 20%, e com o preço 20% menor o ciclo empata.
Quando a colheita cai, a receita cai, e cai também todo custo pago por unidade colhida: colheita terceirizada cobrada por saca ou por tonelada, frete até o armazém ou até o porto, secagem, armazenagem, comissão da venda, royalty de tecnologia por saca entregue. Nada disso é gasto com grão que não veio. No exemplo, R$ 120.000 dos R$ 720.000 acompanham o tamanho da colheita, e os outros R$ 600.000 ficam iguais, venha o que vier do talhão.
Feita a conta, a colheita pode cair 23,1% antes de o ciclo empatar. Nesse ponto, a receita, descontados os R$ 120.000 de custo ligado à colheita, que encolhem na mesma proporção, cobre exatamente os R$ 600.000 que não mudam. Sempre que parte do custo acompanha a colheita, a folga de colheita sai maior que a de preço, em qualquer ciclo que fecha com lucro.
Três pontos parecem detalhe, mas mostram qual ameaça está mais perto. A fazenda que acredita que as duas folgas têm o mesmo tamanho vai tratar a seca e o tombo de preço como ameaças igualmente próximas. Em qualquer fazenda que pague alguma coisa por saca ou por tonelada, o preço é a mais próxima.
Um orçamento comum, como o que o artigo do orçamento do ciclo monta para calcular quanto um ciclo deve deixar, mostra uma folga só, que vale para preço e colheita ao mesmo tempo. Ele conta colheita e frete como custo fixo na produtividade esperada, o que serve para saber quanto o ciclo deve render. Para saber quanto o ciclo aguenta cair, as duas folgas precisam ficar separadas.
Quais linhas do custo caem com a colheita, e quais já foram gastas?
Esta parte é julgamento, e nenhuma calculadora faz por você. A divisão que importa não é a que o contador usa.
Fixo contra variável pergunta se o custo muda com o quanto você planta. Aqui essa é a pergunta errada. Semente, adubo e defensivo são custo variável em qualquer livro, mas já foram pagos quando alguém descobre que a lavoura quebrou, e uma colheita curta não devolve nenhum centavo deles. Nesta conta, eles ficam com os custos que não mudam, ao lado do arrendamento e da depreciação.
A pergunta a fazer para cada custo é se ele depende do quanto de fato sai da porteira. Desça pelas notas fiscais do ciclo passado e coloque cada linha de um lado ou do outro:
Anda com a colheita: colheita terceirizada paga por saca ou por tonelada, frete até o armazém ou até o porto, secagem e limpeza cobradas por carga, armazenagem paga por unidade guardada, comissão da venda, royalty ou taxa de tecnologia por saca entregue, e a embalagem, o barbante ou a sacaria usados só no que foi colhido.
Já foi gasto: semente, adubo, calcário, defensivo, o combustível queimado antes da colheita, arrendamento, depreciação de máquina, salários, seguro, administração, juros do custeio, e colheita terceirizada contratada por hectare em vez de por saca ou por tonelada.
Duas linhas costumam dar discussão. A colheita terceirizada é a primeira, e o lado dela depende do contrato, e não do serviço: paga por hectare, já foi gasta; paga por tonelada, anda com a colheita. A segunda é a máquina própria. Passar a colhedora numa lavoura rala gasta menos combustível e desgaste do que numa lavoura cheia, mas não proporcionalmente menos, porque a máquina atravessa o talhão inteiro do mesmo jeito. Coloque do lado que anda a parte que acompanha a tonelada, deixe o resto onde está, e escreva como você decidiu, porque daqui a um ano ninguém vai lembrar.
Errar essa divisão custa mais para um lado do que para o outro. Se você deixar em branco a linha da calculadora para o custo ligado à colheita, ela trata nenhum custo como móvel: a folga de colheita volta para 20% em vez de 23,1%, e o índice para 0,80 em vez de 0,84. Esse erro é pequeno e fica do lado seguro, porque subestima a folga.
O erro perigoso é exagerar a parte móvel. Declare os R$ 720.000 inteiros como custo que anda com a colheita e a calculadora responde que a colheita poderia ir a zero e ainda assim empatar, porque nessa conta uma lavoura que não existe não custa nada para ser colhida. O resultado está certo dentro da fórmula e é absurdo na fazenda, que é o que qualquer fórmula devolve quando recebe um número que ninguém conferiu.
O que 20% de folga não dizem?
Se 20% é muito.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) chama esses três números de valores de comutação nas suas diretrizes para projetos de investimento agrícola, e avisa que eles medem o quanto o resultado é sensível, e não o quanto a queda é provável: duas dimensões precisam ser consideradas, a sensibilidade e a probabilidade.
Vinte por cento de folga querem dizer uma coisa num leite vendido por contrato anual e outra muito diferente numa soja vendida no disponível. A porcentagem é a mesma. O que separa as duas fazendas é o quanto os preços e as produtividades delas já variaram nos anos anteriores, e isso está no registro, e não no orçamento.
Então o lado da probabilidade precisa vir do registro da própria fazenda. Para a série de preços e para a de produtividade, calcule a variação típica, o quanto um ano normal fica longe da média, em porcentagem; a calculadora faz essa conta para você a partir da lista de números anuais (em estatística, é o desvio-padrão dividido pela média). Depois, pergunte que fração dessas variações o ciclo aguenta antes de o lucro chegar a zero. No exemplo, o preço varia 17,4% e a produtividade 8,9%, e o empate chega quando os dois caem 0,84 da própria variação no mesmo ano: o preço 14,6% e a colheita 7,5%. Esse 0,84 é o índice de resiliência.
A calculadora lê o índice em três faixas. Abaixo de um é frágil: um ano ruim comum naquela fazenda consome a margem. Entre um e dois é apertado: o prejuízo fica dentro do que o registro já mostrou. Acima de dois é folgado: só um ano pior do que qualquer um do registro chega lá.
Antes de confiar nessa divisão, faça a conta que não exige método nenhum: conte. Nos oito anos de preço do exemplo, das sete mudanças de um ano para o outro, cinco foram quedas, e três dessas passaram de 15%. Dois dos oito anos fecharam mais de 11,4% abaixo da média da série. Essa contagem não supõe nada, e é a primeira coisa a escrever na página.
A contagem também tem limite. Em oito anos, os anos em que preço e colheita caíram juntos costumam ser zero ou um, e zero só quer dizer que falta dado. A contagem também ignora o tamanho: o ano que passou raspando da folga conta igual ao que passou muito além dela. O índice usa os oito anos, junta preço e colheita numa leitura só e mede a que distância está o prejuízo, e não com que frequência ele vem. Dividir a folga pela variação é uma escolha deste artigo, e não um padrão publicado, por isso deixe a contagem ao lado do índice na página.
Onde os dois juntos derrubam a fazenda?
A folga combinada fica perto da metade de qualquer uma das folgas isoladas, porque a receita é preço vezes colheita, e as duas quedas se multiplicam. Perca um décimo do preço e um décimo da colheita e a receita cai 19%, já que 0,9 vezes 0,9 dá 0,81, enquanto o custo que não muda continua inteiro e come a diferença. Numa margem de 20% sem nenhum custo acompanhando a colheita, uma queda igual de 10,6% nos dois já leva ao empate. Com o custo ligado à colheita do exemplo, são precisos 11,4%.
A objeção comum é que preço e produtividade não caem juntos, porque safra curta é safra cara. Isso vale para um país e muitas vezes falha para uma fazenda. O serviço de pesquisa econômica do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos explica por quê: a produtividade e o preço de uma fazenda não precisam ter relação nenhuma, porque a produção de um estabelecimento não move perceptivelmente o preço de mercado.
Essa compensação, que o mesmo relatório chama de proteção natural, funciona para quem está dentro da região cuja colheita forma o preço. Fora dessas regiões, a proteção natural é muito mais fraca, e produtividade baixa com preço baixo passam a acontecer ao mesmo tempo com mais frequência. O relatório acrescenta que a variabilidade de produtividade é maior no nível da fazenda do que no do estado ou no do país.
As duas quedas também podem ter causas separadas no mesmo ano: na América Central, a safra de café de 2012 e 2013 enfrentou ao mesmo tempo redução de preços e perdas de produção por ferrugem. O conselho agropecuário da região estimou a perda em 500 milhões de dólares, equivalentes a 20% da colheita, segundo estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), das Nações Unidas.
Então a folga combinada é o caso realista para quem está fora do centro do próprio mercado, e o caso pessimista para quem está dentro.
Qual vale para você, dá para conferir no seu registro. Coloque os anos lado a lado e olhe os de colheita mais fraca. Se neles o preço estava acima da média, a compensação funciona para você; se o preço também estava baixo, ela não existe. No exemplo, os dois anos de pior colheita, com produtividade de 49 e 55 contra uma média de 59, foram os dois de melhor preço, 115 e 130 contra uma média de 98,5, e ali a compensação funciona.
Uma fazenda com o mesmo orçamento e com os anos de colheita ruim coincidindo com os de preço ruim não tem compensação com que contar, então o 0,84 dela vale como está. Onde a compensação funciona, como no exemplo, o índice real fica um pouco acima de 0,84. Confira qual é o seu caso antes de tratar o índice como veredito, e escreva a resposta.
Por que a variação tem de vir do registro, e não da memória?
Porque a variação que se estima de cabeça tende a sair estreita demais, e a calculadora não distingue um número lembrado de um número registrado.
Quando a série não está à mão, a calculadora aceita uma porcentagem digitada e avisa quando você usa esse caminho. O aviso vem de um estudo de Cruz Júnior e colegas na Revista de Economia e Sociologia Rural, em que produtores rurais de milho de vários estados distribuíram as próprias expectativas de preço entre faixas. Na comparação estado por estado, “em todos os casos, os desvios padrão obtidos a partir dos questionários foram inferiores aos históricos”. Foi uma cultura só, mas a direção do erro é motivo para usar o registro.
A variação estreita não falha em silêncio: ela vira o veredito. Digite 12% para o preço e 8% para a produtividade no lugar dos 17,4% e 8,9% do registro do exemplo, e o índice sobe de 0,84 para 1,12, de frágil para apertado. Nada mudou na fazenda. Um número veio do registro e o outro da memória.
Oito anos também são um registro curto. Zampieri e colegas, que criaram um indicador publicado de quanto a produção agrícola é estável, relatam incerteza de amostragem abaixo de 30% só com trinta anos ou mais de dados. Eles registram também que erros de amostragem maiores aparecem em séries mais curtas e em sistemas com flutuação entre anos maior em relação à média de produção. Oito anos dão uma medida grosseira, ainda assim muito melhor do que nenhuma, e essa imprecisão aparece no índice em vez de sumir.
Se só uma série puder ser reconstruída, comece pela de preço. Oliveira e colegas, na Revista de Política Agrícola, da Embrapa, estudaram três sistemas de leite em Piracanjuba, Goiás. A conclusão deles: “o preço do leite e a produtividade foram as mais relevantes para estimar os indicadores de rentabilidade, e a primeira mostrou-se mais significativa do que a segunda, ou seja, os resultados econômicos foram mais sensíveis ao preço de venda do leite”. É uma região e uma atividade, então confira contra a sua própria série.
O que este índice não é?
Não é probabilidade, e não é o único número de resiliência que os mesmos dados produzem.
Rode a série de produtividade do exemplo pelo indicador que Zampieri e colegas publicaram e ela sai com pontuação alta, porque essa série varia pouco. O indicador deles mede estabilidade e não olha onde fica o ponto de empate, então uma fazenda que perde dinheiro todo ano, com regularidade, ainda poderia sair bem nele. O índice deste artigo mede a distância até o empate, contada em variações.
Mais quatro coisas que o índice não diz.
Ele não dá a chance. Transformar 0,84 de uma variação em porcentagem de prejuízo exigiria supor um formato para a distribuição de preços e de produtividades, e a calculadora não supõe nenhum. Abaixo de um quer dizer que a distância até o prejuízo é menor que uma variação comum, e nada mais preciso que isso.
Ele não sabe se as suas duas séries andam juntas. A conta empurra preço e produtividade para baixo lado a lado, cada um na sua escala, que é o pior caso certo para quem está fora do centro do mercado e um caso pessimista para quem está dentro. Onde existe compensação de verdade, o índice real fica acima do impresso.
Ele mede a queda a partir do preço esperado, e não da sua média histórica. Se o preço esperado está acima da média do seu registro, parte da folga já foi gasta antes do primeiro dia ruim. Monte a receita sobre o preço que você espera, e não sobre o que você torce para receber.
E ele parte de um orçamento, que é um conjunto de números que ainda não aconteceram.
O que muda em cada faixa?
Existem duas alavancas, e saber qual delas uma decisão usa importa mais do que a decisão em si. Ou você aumenta a folga, ou diminui a variação. Aumentar a folga é aumentar a margem: custo menor, produtividade maior, preço melhor ou uma parte menor do custo de estrutura lançada neste ciclo. Diminuir a variação é fazer os seus números oscilarem menos: contrato, hedge, irrigação, escalonamento de plantio, mais de uma fonte de receita. Muita fazenda corre para a segunda alavanca quando o conserto mais barato está na primeira.
As duas alavancas puxam uma contra a outra. Toda proteção que diminui a variação é paga com margem, e a margem é a folga. Suponha que travar o preço de metade do volume corte a variação de preço pela metade e custe 2% da receita esperada: a folga encolhe, a variação encolhe mais, e o índice do exemplo sobe de 0,84 para 1,19, de frágil para apertado. A mesma proteção custando 8% da receita dá 0,83, abaixo do ponto de partida, e a fazenda pagou para ficar pior. Neste exemplo, o ponto de virada fica perto de 8% da receita, ou 40% da margem. As contas são deste artigo, sobre a fazenda de exemplo.
Abaixo de um (frágil) não é aviso de catástrofe. Quer dizer que um ano comum, de um tamanho que já está no seu registro, termina este ciclo em zero ou abaixo. Decida antes do plantio, e não depois, e coloque preço em cada alavanca. Aumentar a folga: qual é a maior linha de custo, e o que seria preciso para mexer nela o bastante para aumentar a margem em um terço, que é mais ou menos o que leva o índice deste exemplo para acima de um. Diminuir a variação: quanto custaria travar parte do preço, e esse custo é menor do que a margem que ele protege.
A calculadora de cenário de preço e hedge responde a segunda pergunta, e a calculadora de venda antecipada calcula quanto custa a certeza; dois artigos explicam cada conta, qual preço sobra depois do hedge e travar o preço agora compensa. Índice frágil sem resposta em nenhuma das duas alavancas é uma decisão de carregar o risco, que só se sustenta quando alguém a tomou de propósito e escreveu.
Entre um e dois (apertado) quer dizer que o prejuízo fica dentro do que o seu registro já mostrou, então um ano que chegue lá tende a vir. Aqui um gatilho escrito compensa, e ele sai da folga combinada, e não da folga de preço. No exemplo, isso quer dizer agir quando o preço estiver 11,4% abaixo do esperado, em vez de esperar os 20%, porque os 20% supõem que a colheita vem como planejada. Escreva o preço, a ação e o nome de quem age.
Acima de dois (folgado), a pergunta deixa de ser sobreviver ao ano e passa a ser manter a folga. A folga acompanha a margem de perto, e com variações como as do exemplo ficar folgado é raro: nesta mesma fazenda, uma margem de 10% dá índice de 0,41, uma de 30% dá 1,30, e só uma margem perto de 45% chega a dois. Um ciclo folgado pode ficar apertado depois de um único aumento de custo, então o índice é uma leitura com data, e não uma característica da fazenda.
O índice também alimenta a lista de riscos da fazenda. Se você dá a cada risco uma pontuação de impacto de 1 a 5, como mostra o artigo da lista de riscos da fazenda, queda de preço e seca costumam ser duas linhas separadas. A folga combinada transforma essas duas pontuações em dinheiro: no exemplo, uma queda de 15% só no preço deixa o ciclo com R$ 45.000 de sobra, e a mesma queda com uma colheita 10% menor deixa o ciclo R$ 19.500 no vermelho. São R$ 64.500 de diferença entre duas linhas que uma conversa rápida teria pontuado igual.
Por onde começar
Uma tarde, com as notas fiscais do ciclo passado, o registro de preços e o de produtividade na mesa. O que sai é uma página datada, com mais coisa do que os números que a calculadora pede.
Outros artigos sobre como medir o risco a que a fazenda está exposta estão em sustentabilidade e risco, e em gestão de fazendas você vê como uma leitura como esta entra na gestão da fazenda inteira.