Cuide primeiro dos riscos com o maior índice. Dê a cada risco uma pontuação de um a cinco para a chance de ele acontecer e outra de um a cinco para quanto ele custaria, multiplique as duas e coloque a lista em ordem pelo resultado, o índice do risco. No fim, você tem uma folha de papel ou uma planilha com um risco por linha, as duas pontuações, o índice e o que você pretende fazer a respeito.
O método vem de um curso sobre risco na fazenda escrito para a Plataforma para a Gestão de Riscos Agropecuários (PARM, na sigla em inglês), um programa sediado no Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência das Nações Unidas. Os autores resumem a conta numa linha: para calcular os valores, usa-se uma multiplicação simples.
Pergunte o que pode dar errado na fazenda este ano e a resposta costuma vir como uma lista sem ordem: uma estiagem, uma queda de preço, uma colhedora que quebra no meio da colheita, um encarregado que pede as contas. Pergunte a duas pessoas da mesma fazenda qual é o pior e muitas vezes vêm duas respostas diferentes, porque ninguém anotou, para cada risco, qual a chance de acontecer e quanto custaria. As duas pontuações colocam exatamente isso no papel.
Quais são as duas pontuações que você dá?
Probabilidade e impacto, cada uma de um a cinco, por uma escala escrita no alto da folha, para que duas pessoas que pontuam o mesmo risco cheguem ao mesmo número. Para a probabilidade, o curso da PARM tem cinco níveis, de remota a muito provável, cada um com a chance, em porcentagem, de o evento acontecer no período que você está planejando: remota corresponde a 0 a 10%; improvável, a mais de 10% até 25%; possível, a mais de 25% até 50%; provável, a mais de 50% até 90%; e muito provável, a mais de 90% até 100%. Remota vale um; muito provável, cinco.
O impacto é quanto o risco custaria à fazenda se acontecesse, de insignificante (um) a catastrófico (cinco). No exemplo do curso, o degrau mais baixo é uma perda de menos de 5% e o mais alto, uma perda de mais da metade. Os autores recomendam ajustar esses degraus a cada negócio, porque onde a margem é apertada uma perda de 15% já pode ser catastrófica. As pontuações são avaliação de quem pontua, e os autores deixam isso claro: quem faz a avaliação deve questionar e discutir as escalas.
Para dois riscos que aparecem em quase toda lista, a queda de preço e a quebra de safra, a pontuação de impacto pode sair de uma conta em reais, e não de um palpite. Estime quanto uma queda provável do preço, ou da produtividade, tiraria da receita da safra, e escolha a pontuação de impacto que corresponde a essa perda na escala.
Preço e produtividade também podem cair na mesma safra. Em linhas separadas, cada queda pode parecer suportável, enquanto as duas juntas podem zerar o lucro, porque ninguém soma as duas perdas. Dê a esse caso uma linha própria e pontue o impacto pela perda das duas quedas juntas. Quanto o preço, a produtividade ou os dois ao mesmo tempo podem cair antes de a receita deixar de cobrir os custos está calculado passo a passo em outro artigo deste site, sobre quanto a fazenda aguenta antes de dar prejuízo.
Um pedido para a fazenda informar as próprias emissões, feito por um comprador ou exigido por uma regra nova de carbono, entra na lista como risco de fora da fazenda. O impacto dele costuma ser pontuado no palpite, porque as emissões da fazenda raramente foram medidas. Num artigo à parte deste site, sobre de onde vem o carbono da fazenda, você calcula as emissões atividade por atividade; com ele, dá para estimar quanto custaria atender ao pedido e pontuar o impacto a partir daí.
Como as duas pontuações viram um número só?
Multiplicando. Duas pontuações de um a cinco dão um índice de 1 a 25, e basta ordenar a lista pelo índice. O que falta decidir é onde uma faixa termina e a seguinte começa. Na calculadora de matriz de risco deste site, as quatro faixas são: de 1 a 4, baixo; de 5 a 9, médio; de 10 a 15, alto; e de 16 a 25, crítico.
Numa grade, com as cinco pontuações de probabilidade de um lado e as cinco de impacto do outro, as 25 células formam a matriz de risco. Só quatro células chegam a crítico, aquelas em que probabilidade e impacto são os dois quatro ou cinco: os riscos ao mesmo tempo prováveis e pesados.
Qual risco vem primeiro, numa lista de verdade?
O de maior índice. No curso da PARM, os autores trabalham o exemplo de uma fazenda com sete riscos.
| Risco | Probabilidade | Impacto | Índice |
|---|---|---|---|
| Seca | 4 | 5 | 20 |
| Preços altos dos insumos | 4 | 4 | 16 |
| Praga | 3 | 4 | 12 |
| Falta de mão de obra | 4 | 3 | 12 |
| Preços baixos de venda | 3 | 3 | 9 |
| Doença | 2 | 1 | 2 |
| Enchente | 1 | 1 | 1 |
Em ordem de índice, a seca e os preços dos insumos ficam no topo, que é também a conclusão dos autores: o risco de maior prioridade para este produtor rural é a seca, seguida pelos preços altos dos insumos. Quem tiver a folha na mão pode refazer cada multiplicação e conferir a ordem.
Onde é fácil ler a matriz errado?
No empate. A praga e a falta de mão de obra ficam as duas com índice 12, e não são o mesmo risco: a praga é uma chance média (3) de uma perda pesada (4); a falta de mão de obra, uma chance alta (4) de uma perda média (3).
Pelo índice sozinho, não dá para saber qual dos dois vem primeiro. Quando dois riscos empatam, olhe as duas pontuações e decida a ordem conversando com quem as deu.
Um desastre raro pesa mais que um incômodo frequente?
Pode pesar, embora os dois tenham o mesmo índice: um desastre raro pontuado com 2 e 5 e um incômodo frequente pontuado com 5 e 2 dão os dois 10. Muita gente não vê os dois como iguais.
Em dois experimentos on-line com 2.699 adultos britânicos, perguntados sobre riscos imaginários de enchente e não de fazenda, uma equipe de Cambridge liderada por Sutherland encontrou uma preferência geral por reduzir o impacto em vez da probabilidade. Num guia de avaliação de risco do governo americano, escrito pelo NIST para sistemas de computador e não para fazendas, um evento de baixa probabilidade e impacto muito alto é classificado como moderado, e um de probabilidade muito alta e impacto baixo, como baixo. Então, quando um risco raro seria catastrófico, compare-o com os riscos frequentes de mesmo índice e, se julgar que ele é pior, suba-o na lista à mão e anote por quê.
O que você faz com cada faixa?
Decida o que fazer com cada risco e use a faixa para definir o prazo. Um risco crítico recebe uma ação agora, com o nome de uma pessoa e uma data ao lado. Um risco alto recebe uma ação planejada ainda neste ano. Um risco médio fica sob observação e volta na próxima revisão da folha. Um risco baixo é aceito e registrado, o que também é uma decisão. Toda ação termina de um de dois jeitos: uma correção, com um responsável e um prazo, ou uma decisão escrita de que a fazenda vai conviver com o risco. Uma folha sem nomes ao lado dos riscos críticos e altos continua sendo só uma lista.
Por onde começar
Reserve uma tarde com as pessoas que conhecem a operação, digam em voz alta as preocupações do ano e peça a alguém que anote. Procure riscos de fora da fazenda, como preços, clima, regras e compradores, e de dentro dela, como pessoas, máquinas e caixa, que é a divisão que os autores do curso da PARM usam.
As pontuações envelhecem muito antes de a folha se gastar, e é por isso que ela leva data. Uma seca pontuada com quatro no ano passado pode merecer cinco depois de dois anos secos, e quem guardou a folha antiga vê a pontuação mudar e pode discutir por quê. Com a calculadora de matriz de risco, a multiplicação e a ordenação ficam prontas, e as pontuações continuam com você. Outros artigos sobre como a fazenda atravessa anos ruins estão na seção de sustentabilidade da biblioteca. Colocar os riscos em ordem é uma parte da gestão de fazendas, e o resto está nessa página.