Para reconhecer um bom trabalho sem que pareça favoritismo, escreva a regra e entregue-a à equipe antes de começar o mês, o trimestre ou o ano em que ela vale. Numa folha de papel você escreve o que merece reconhecimento, a cada quanto tempo ele é dado e em que forma: um obrigado, uma folga, um vale-compras. No dia da entrega, você coloca a data na folha. Essa é a folha de reconhecimento: nela vai a regra, nunca a lista de quem ganhou o quê.
Se você só decide depois quem ganha alguma coisa, olhando quem se destacou, quem ficou sem nada não tem como saber o motivo. Para essas pessoas, o obrigado que você deu para incentivar vira prova de que, nesta fazenda, o reconhecimento vai para quem você gosta.
Imagine que numa noite o tratorista fica até tarde para terminar o plantio de um talhão, e na manhã seguinte ganha uma folga. No mesmo mês, outro empregado ganha um vale-compras e um terceiro ganha um obrigado, e ninguém mais fica sabendo o que cada um fez para merecer. Os outros não sabem o que teriam de fazer para ganhar o mesmo. A folga sai barata para você. O que sai caro é o motivo ter ficado só na sua cabeça, porque aí o resto da equipe entende como favoritismo.
Por que o reconhecimento decidido depois parece favoritismo?
Porque, sem uma regra combinada antes, você só tem o próprio julgamento, e quem ficou sem nada não enxerga o que estava na sua cabeça. A folga dada pelo que você sente é uma decisão que você toma sozinho. O resto da equipe não tem nada escrito com que comparar a sua escolha, e não consegue saber se ela premiou o trabalho ou a pessoa.
O que muda quando a equipe conhece a regra antes?
Quando a equipe conhece a regra antes, quem ficou sem nada consegue ver o motivo: o reconhecimento foi para um trabalho que ele também podia ter feito, e não para alguém de quem você gosta. Dois experimentos curtos olharam para duas partes disso: o prêmio prometido antes e o motivo dito em voz alta. Os dois contrataram, na maioria, estudantes para algumas horas de digitação, e não uma equipe de fazenda. No primeiro, dos economistas Michael Kosfeld e Susanne Neckermann, parte dos estudantes tinha um prêmio prometido antes para o melhor desempenho: um cartão de parabéns, sem nenhum dinheiro. Esses estudantes produziram mais do que os que não tinham prêmio nenhum.
O segundo experimento, da economista Christiane Bradler e três colegas, testou só a segunda parte, o motivo dito em voz alta. Ninguém tinha prometido nada. Depois de duas horas de serviço, um cartão de agradecimento foi entregue só a quem tinha digitado mais até ali, como reconhecimento público por estar entre os que mais produziram, e o grupo inteiro ficou sabendo por quê. Quem mais aumentou a produção depois disso foram os que não ganharam cartão. Os autores acham que essas pessoas, ao ouvir o motivo, perceberam que estavam atrás da maioria do grupo e se esforçaram para alcançar.
Quando o motivo do reconhecimento é dito em voz alta, o resto da equipe fica sabendo o que se espera dela. Quando não é, cada um tira a sua conclusão, e favoritismo é a mais fácil.
Com a regra na folha, quem decide quem ganha o quê continua sendo você. A diferença é que qualquer um pode comparar a sua decisão com a regra e entender o motivo.
O que vai na folha de reconhecimento?
A folha tem quatro itens. Primeiro, o que merece reconhecimento, escrito como um trabalho que qualquer um da equipe pode cumprir. Por exemplo: terminar o plantio dentro da janela de plantio, um mês sem acidente, cobrir o turno de um colega doente sem ninguém pedir. Segundo, a cada quanto tempo o reconhecimento é dado, por exemplo no fim de cada mês ou depois de cada colheita. Assim ele vem em data certa, e não quando você está de bom humor.
Terceiro, a forma, que não precisa custar muito. A Penn State Extension, serviço de extensão rural da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, lista formas que funcionam na fazenda: uma palavra de agradecimento no fim do turno, citar o esforço de alguém na reunião de equipe, comemorar o fim da colheita. Quarto, a data em que você entregou a folha à equipe, antes de começar o período. É essa data que faz da folha uma regra, e não um recado solto: com ela você consegue mostrar que a regra veio primeiro.
Se quem distribui o reconhecimento é um gerente, e não você, entregue a ele a mesma folha, para que ele premie pela sua regra nos dias em que você não está. Quais decisões o gerente pode tomar sem consultar você é assunto de um artigo à parte sobre o que o gerente decide sozinho. Pregue uma cópia da folha onde a equipe olha todo dia, por exemplo ao lado da escala de trabalho.
Você já planeja o serviço do mês antes de ele começar, e não com o mês andando. A folha faz o mesmo com o jeito de premiar as pessoas, como mais uma parte da gestão da fazenda inteira. Há artigos sobre contratar, pagar e avaliar a equipe na seção de pessoas desta biblioteca.
Onde a regra dá errado?
Uma regra de reconhecimento pode dar errado de três jeitos, e você evita cada um na hora de escrever a folha. O primeiro é premiar o que o clima fez, e não o que o trabalhador fez. Escreva cada linha sobre um trabalho que a pessoa controla, como o plantio terminado dentro da janela ou o turno coberto. Deixe de fora a produtividade da lavoura e o preço de venda da produção, porque nenhum trabalhador controla isso por inteiro.
O segundo é escrever a regra e depois não cumprir. Isso é pior que não ter regra, porque agora a equipe inteira viu você quebrar uma. O terceiro é deixar a folha virar uma classificação das pessoas, do melhor ao pior. Na folha, você compara o trabalho de cada um com a regra, nunca com o de um colega. Se você quer acompanhar como a equipe vai no conjunto, com números como a rotatividade, esse é outro trabalho, com artigo próprio: escolher quais números da equipe acompanhar.
Os estudos citados aqui são experimentos curtos com estudantes, não com equipes de fazenda, e mediram quanto as pessoas trabalharam, não se alguém viu favoritismo. Sobre se o prêmio prometido antes aumenta o esforço, eles não concordam: em outro experimento da equipe de Christiane Bradler, um cartão de agradecimento anunciado antes para os três melhores não teve efeito. Então o motivo para entregar a regra antes não é fazer a equipe trabalhar mais. É deixar todo mundo ver por que alguém foi reconhecido. Use esses estudos como indício de que reconhecer com um motivo declarado pode funcionar, não como promessa do que vai acontecer na sua fazenda.
Por onde começar
Uma folha de papel e uma hora, antes de começar o mês, o trimestre ou o ano em que a regra vai valer.
Escrever a regra custa algo de verdade: a liberdade de premiar na hora, pelo que sente, do jeito que sempre foi. Em troca, na próxima vez que você agradecer ao tratorista, o resto da equipe sabe o que ele fez para merecer, e o que cada um teria de fazer para merecer também.