Para saber o que a sua equipe pensa de verdade, entregue duas vezes por ano uma pesquisa curta, sem nome, e conte as respostas pergunta por pergunta. Assim você sabe quantos têm cada queixa, em vez de adivinhar. No fim você tem a contagem de cada pergunta e uma página com as três queixas que mais apareceram, e ao lado de cada uma o que você vai fazer, quem cuida disso e até quando.
Talvez gente boa tenha ido embora, o pessoal quase não converse no almoço, e você não saiba se são dois insatisfeitos ou uma dúzia. Quando pergunta a um empregado como vai o trabalho, em geral ouve que está tudo bem, e acaba agindo pela última reclamação que ouviu, ou pela mais barulhenta. E, quando um bom empregado pede as contas, é surpresa.
Por que perguntar cara a cara raramente traz a resposta sincera?
Porque, quando pode ser identificada, a pessoa tende a ajustar o que diz para soar aceitável, e mais ainda quando quem pergunta paga o salário dela. Quem estuda questionários chama isso de viés de desejabilidade social, que Zaal e colegas descrevem como a tendência das pessoas a se apresentar em termos socialmente aceitáveis. Em artigo de 2026 na revista Quality & Quantity, dedicada a métodos de pesquisa, esses pesquisadores revisaram 121 experimentos com formas de reduzir esse viés.
Segundo eles, em geral se espera que esse viés diminua quando a pessoa responde de forma mais anônima. Nos estudos que compararam a pessoa responder sozinha, no papel ou numa tela, com responder a alguém cara a cara, responder sozinho deu melhor resultado: menos respostas vieram ajustadas para agradar. Nenhum método eliminou o viés por completo, então, com a sua pesquisa sem nome, você consegue uma resposta mais sincera, não perfeita.
Quais perguntas fazer, e por que tão poucas?
Pergunte sobre cinco ou seis coisas que pesam para alguém ficar, como salário, treinamento ou o jeito como as pessoas são tratadas, com uma pergunta curta para cada e as mesmas opções para todos: sim, não ou não sei. Se não sabe o que pesa na sua fazenda, olhe por que as pessoas saíram e do que reclamaram este ano.
Depois acrescente uma pergunta aberta, em que a pessoa escreve a coisa que mais gostaria de mudar. Faça tudo caber numa página, porque a pesquisa curta tem mais chance de ser respondida até o fim. Se alguém da equipe lê melhor outra língua que o português, faça uma cópia na língua dele também; a certificação agrícola GLOBALG.A.P. pede que o canal de queixas da fazenda esteja disponível nas línguas que predominam entre os trabalhadores.
Conte cada pergunta separada: quantos disseram sim, quantos disseram não, quantos não sabem. Não junte tudo numa pontuação só da equipe, porque um bom resultado no salário pode esconder um ruim no treinamento. Numa fazenda pequena, também não separe as respostas por grupo, como por idade, porque isso pode revelar quem respondeu. Onde quase todos reclamam na mesma pergunta, a queixa é da equipe inteira. Onde a equipe se divide mais ou menos ao meio, o problema pode pesar só para uma parte dela, e nas respostas abertas você pode achar o porquê.
Por que perguntar, em vez de simplesmente aumentar o salário?
Porque o problema pode não ser o salário, e o aumento pode resolver um problema que a equipe não tinha. Os pesquisadores Roy e colegas ouviram 1.202 pessoas sobre o trabalho na banana, na Austrália, e concluíram que a atração desses empregos depende mais das condições qualitativas do emprego do que de incentivos puramente econômicos, como treinamento e um ambiente de trabalho que dá apoio; é uma cultura só, num país só, então vale como alerta, não como prova para a sua fazenda.
Os pesquisadores sabem pouco do que pensa quem trabalha em fazenda. Sullivan e colegas, que ouviram 329 trabalhadores de 29 confinamentos de gado nos Estados Unidos, observam que a visão de quem cuida do gado todo dia recebeu pouca atenção perto dos estudos sobre saúde e desempenho dos animais. Campler e colegas, que ouviram trabalhadores com visto de trabalho em granjas de suínos dos Estados Unidos, apontam que a rotatividade entre eles é alta e as causas de fundo são, em grande parte, desconhecidas. Perguntar à sua própria equipe é o jeito de achar as causas na sua fazenda.
Se já acompanha números da equipe, como a rotatividade e as faltas, anote a contagem da pesquisa ao lado deles. Se ainda não acompanha nenhum, este guia ajuda a escolher quais números da equipe acompanhar.
Pesquisa é ferramenta de gestão de verdade, ou papo mole?
É ferramenta de verdade, desde que você faça algo com o que contou. A GLOBALG.A.P., uma certificação de boas práticas agrícolas, exige no módulo sobre condições de trabalho que os trabalhadores tenham um jeito de levantar o que importa para eles, como uma reunião feita com regularidade. Ela não exige pesquisa, mas você pode usar uma para o mesmo fim.
Só que, na reunião, você ouve apenas o que as pessoas topam dizer na frente dos outros. A pesquisa acrescenta o que elas só dizem sem nome e, como ninguém assina, não dá para usá-la para avaliar ou classificar ninguém.
A pesquisa também não substitui o jeito de um empregado trazer a você um problema no dia em que ele aparece; isso é outra ferramenta, explicada em como a equipe traz um problema a você antes que ele estoure.
Quando a pesquisa atrapalha mais do que ajuda?
Em dois casos. O primeiro é contar as respostas e não decidir nada: a equipe respondeu à toa e fica com menos motivo para responder a próxima. O segundo é tomar uma contagem baixa como julgamento de uma pessoa, por exemplo culpar o encarregado quando poucos dizem que o chefe escuta. Se a contagem vira culpa de alguém, as pessoas voltam a tomar cuidado com o que respondem.
Quando apresentar o resultado, mostre só a contagem de cada pergunta e as respostas abertas já agrupadas, nunca o papel que uma pessoa respondeu. Com poucas respostas, olhe para que lado os números andam de uma pesquisa para a outra, não para um resultado isolado.
Por onde começar
Uma página de perguntas, uma caixa lacrada e uma tarde, duas vezes por ano.
Neste panorama da gestão da fazenda você vê onde a pesquisa com a equipe se encaixa no resto do trabalho de gerir uma fazenda, e há outros artigos sobre gestão de pessoas na mesma seção da biblioteca.