Pular para o conteúdo
Diagnóstico
BibliotecaComercialização

Como avaliar a venda da safra: o vendido contra o plano

No fim da safra, compare o que você vendeu em cada etapa do plano com o que o plano mandava vender, e não com o melhor preço do ano.

Publicado em Atualizado em 15 min
Neste artigo

“Das sacas que o plano mandava vender antes do plantio, quantas você vendeu?” O banco que financiou o custeio pergunta isso no fim da safra, e uma resposta de memória não resolve nada. A decisão é como avaliar a venda da safra: contra o plano de comercialização escrito, e não contra o melhor preço do ano. Avaliar no olho custa dinheiro, porque as sacas que caem na etapa errada do plano (a parte da produção marcada para vender até uma data) saem a preços diferentes. Em 40.000 sacas de soja de 60 kg, 10% são 4.000 sacas: R$ 40.000 de diferença aos R$ 10 por saca que separam o melhor e o pior preço de etapa do exemplo abaixo. Por isso, uma vez por safra, coloque o percentual vendido em cada etapa ao lado do que o plano previa, numa planilha de uma página.

O que vai em cada linha da planilha de vendas?

Uma linha por venda liquidada, isto é, cujo dinheiro já entrou na fazenda. Preencha com as notas fiscais de venda e os extratos bancários, não com a memória. As etapas vêm do plano de comercialização escrito; sem ele, as linhas e o preço médio ainda funcionam, e esse preço médio vira o primeiro número sobre o qual escrever um plano.

As colunas da planilha de vendas liquidadas
Coluna O que entra
Data A data em que a venda foi liquidada, não a do acordo
Volume e unidade A quantidade que saiu, na unidade em que o comprador pagou
Preço líquido por unidade O preço da nota fiscal, já com os descontos
Comprador Quem pagou, para somar separado cada comprador ou canal
Etapa do plano A que etapa do plano escrito a venda pertence
Quem recomendou O corretor, a cooperativa ou o consultor que recomendou a venda, ou um traço se ninguém recomendou
Quem decidiu A única pessoa com a palavra final de vender, que assina a linha
Figura: Uma linha da planilha de vendas liquidadas, com valores inventados
Uma linha da planilha de vendas liquidadasUm cartão com sete campos preenchidos para uma venda inventada: data, volume, preço líquido, comprador, etapa do plano, quem recomendou e quem decidiu.Uma venda liquidada (inventada)Data12/02/2026, dia da liquidaçãoVolume e unidade7.200 sacas de 60 kgPreço líquido por unidadeR$ 128 por sacaCompradorCooperativa A (exemplo)Etapa do plano1. Antes do plantioQuem recomendouO corretorQuem decidiuO gerente, que assina

Toda venda tem duas mãos, por isso as duas últimas colunas dizem quem recomendou e quem decidiu. No telefone os dois papéis se misturam: o corretor diz para vender, alguém diz sim, o caminhão sai, e um ano depois ninguém sabe quem decidiu.

Contrato ainda não liquidado fica fora desta planilha. Soja vendida para entrega futura e ainda não entregue, ou entregue com o preço em aberto, vai para uma lista à parte até o dinheiro chegar; o volume já travado em contrato trata dessa lista. Misturar a planilha com essa lista é um jeito comum de o percentual vendido sair errado, e o erro costuma ir na direção que agrada.

Como calcular o preço recebido e a diferença de cada etapa?

Multiplique o volume de cada venda liquidada pelo preço, some os resultados e divida pelo volume total vendido. É o preço médio ponderado pelo volume. Ele difere da média simples dos preços, que dá à carga de um caminhão o mesmo peso de um contrato de metade da safra. A FAO define o preço ao produtor como o preço recebido pelo produtor rural na porteira da fazenda ou na primeira venda, e a sua média ponderada é esse número para a sua fazenda.

A média ponderada deixa de fora o custo de esperar. A soja guardada no armazém pagou juro e quebra que nenhuma nota fiscal mostra. A conta de esperar para vender calcula esse custo; anote-o numa linha à parte, ao lado da planilha.

Depois compare os percentuais. O percentual previsto é o que o plano fixou para a etapa antes da safra, copiado do plano. O percentual vendido é o volume vendido na etapa dividido pelo volume total. A diferença entre os dois se escreve em pontos percentuais: 18% vendidos contra 30% previstos são 12 pontos abaixo.

A diferença em cada etapa da planilha do exemplo
Etapa do plano Percentual previsto Percentual vendido Diferença
1. Antes do plantio (até setembro) 30% 18% 12 pontos abaixo
2. Lavoura no campo (outubro a janeiro) 30% 32% 2 pontos acima
3. Colheita e depois (de fevereiro em diante) 40% 50% 10 pontos acima
Figura: Percentual previsto e vendido em cada etapa da planilha do exemplo
Percentual previsto e vendido em cada etapaTrês pares de barras. Antes do plantio: 30% previstos, 18% vendidos. Lavoura no campo: 30% previstos, 32% vendidos. Colheita e depois: 40% previstos, 50% vendidos.Percentual previsto contra o vendido1. Antes do plantioPrevisto30%Vendido18%12 pontos abaixo do plano2. Lavoura no campoPrevisto30%Vendido32%2 pontos acima do plano3. Colheita e depoisPrevisto40%Vendido50%10 pontos acima do plano

A diferença é a pergunta a fazer, e não um veredito. No exemplo, a fazenda vendeu 12 pontos a menos que o planejado antes do plantio, e a planilha ainda não diz por quê.

Por que o melhor preço do ano é a comparação errada?

Porque ninguém sabe a máxima do ano antes de ele acabar, então medir contra ela avalia sorte, e não decisão. Um estudo da Universidade de Illinois com consultorias de comercialização de milho e soja começa com um ditado: os produtores rurais vendem dois terços da safra no terço mais baixo da faixa de preço. As estimativas do próprio estudo para o preço que o produtor rural recebeu mostram um quadro mais brando. De 1995 a 2004, esse preço ficou no terço mais baixo da faixa em 38% das vezes no milho e 20% na soja. Chegou ao terço mais alto em 10% e 18% das vezes, e ao terço do meio em 53% e 63%. Os números são arredondados, por isso cada série soma 101.

Figura: Onde ficou o preço que o produtor rural recebeu na faixa, de 1995 a 2004
Posição do preço recebido dentro da faixaMilho: 38% no terço mais baixo, 53% no do meio, 10% no mais alto. Soja: 20%, 63% e 18%. Arredondados, cada série soma 101.Onde ficou o preço que o produtorrural recebeu na faixa, 1995 a 2004Milho38%53%10%Soja20%63%18%Terço mais baixo da faixaTerço do meioTerço mais alto da faixa

Leia esses números pelo que são: milho e soja no centro de Illinois, de consultorias que os autores amostraram. Eles não dizem nada sobre o Matopiba nem sobre o preço da soja no Brasil. O que vale em qualquer lugar é o padrão: o topo é raro, o meio é comum, e quem se mede contra o topo fracassa quase todo ano.

Escolha a referência antes da primeira venda. Os autores de Illinois usaram duas: o preço médio que o mercado ofereceu nos meses em que o produtor rural podia vender, e o preço médio que os produtores rurais de fato receberam. Para o milho de 1998 do centro de Illinois, o primeiro deu US$ 2,24 por bushel e o segundo US$ 1,92. É a mesma safra e o mesmo ano, com 32 centavos de dólar por bushel de diferença só pela escolha da referência. O bushel de milho equivale a cerca de 25,4 kg, e esses 32 centavos dão cerca de US$ 12,60 por tonelada. A sua média ponderada é preço recebido, então ela vai ao lado da segunda referência. Contra preços ofertados, parte da diferença viria da referência, e não de como você vendeu. Escreva a escolha no plano e guarde os preços que os compradores ofereceram numa série de preços anotada, com a fonte, separada do preço recebido.

Para uma linha pública ao lado da sua média, a Conab pesquisa preços de mais de 112 produtos agropecuários. A pesquisa existe há mais de 30 anos e tem mais de 20 mil registros de séries em todas as unidades da federação. Ela dá ao produtor rural uma referência pública e datada para os produtos e as praças que acompanha. Use-a como linha datada ao lado da sua média, e não no lugar dela: uma série pública é a média de um mercado, e o preço exato da sua fazenda está nas suas notas fiscais.

De onde vêm os percentuais previstos, se não da memória?

Do plano escrito antes da safra, copiado linha a linha na hora de comparar. O percentual vendido até uma data varia muito de um ano para outro, e a memória se desloca para o que deu certo. McNew e Musser acompanharam grupos de comercialização de grãos de Maryland, de 1994 a 1998. A parte do milho com preço fixado na colheita, em outubro, foi de 10% em 1997 a 68% em 1994, embora fossem negócios de papel num exercício de comercialização, e não vendas reais.

Figura: Parte do milho com preço fixado na colheita, em dois anos de Maryland
Milho com preço fixado na colheita, 1997 e 1994Duas barras: 10% do milho com preço fixado na colheita em 1997 e 68% em 1994. Uma variação de 58 pontos entre dois anos.Parte do milho com preço fixado nacolheita nos grupos de Maryland199710%199468%Mesmos grupos, mesmo exercício: umavariação de 58 pontos em dois anos.

Num estudo de laboratório com 63 voluntários, Kaida e Kaida viram que quem tinha visto as respostas corretas de perguntas de estimativa lembrou das próprias estimativas mais perto das respostas corretas. O efeito foi maior com 50 perguntas para guardar do que com 20. O estudo era de conhecimentos gerais, e não de vendas. Uma safra de vendas são muitas decisões, cada uma ligada a um preço que depois pareceu bom ou ruim.

Então copie o percentual previsto do plano, e nunca o digite de memória na hora de comparar. Um plano reescrito depois do resultado parece ter sido seguido, porque foi dobrado para caber no que aconteceu.

O que muda no plano da próxima safra, e quem anota?

Duas linhas embaixo da planilha, escritas por quem decide as vendas. São a única parte que não é aritmética. A primeira diz o que explicou a maior diferença. A segunda diz o que muda no plano escrito da próxima safra por causa dela: uma mudança no próprio plano, e não uma promessa de agir diferente. No exemplo, a maior diferença são os 12 pontos abaixo do plano antes do plantio. Se o preço escrito no plano para a primeira etapa nunca foi alcançado, a mudança vai nessa etapa: ela passa a ter também uma data para vender.

A saída raramente é uma previsão melhor. Os autores de Illinois concluíram que é difícil prever o desempenho de preço de uma consultoria pelo desempenho passado, então uma consultoria mais afiada também não garante nada. O que você pode mudar é o plano. Uma etapa pode ter um gatilho (o preço ou a data que dispara a venda) que nunca disparou porque ninguém tinha autoridade para vender. Uma data de venda pode cair num mês em que todos estão na lavoura. Um percentual pode ser maior do que os caminhões e o armazém davam conta de entregar. Reescrever essas linhas antes de a safra começar é legítimo; reescrevê-las depois, não.

Figura: Três causas de uma diferença e a mudança que cada uma pede no plano
Três causas de uma diferença e a mudança de cada umaTrês cartões. Um gatilho que nunca disparou pede nomear quem pode vender. Uma data em mês de lavoura pede outra data. Um percentual grande demais pede um percentual menor.Uma diferença, sua causa e a mudança no planoUm gatilho nunca disparou:ninguém podia venderMuda no plano: nomear quemtem autoridade de venderA data de venda caiu num mêsde lavouraMuda no plano: passar a datapara outro mêsPercentual maior que acapacidade de entregaMuda no plano: reduzir opercentual da etapa

O preço médio também alimenta a margem. Se você mantém uma margem-alvo declarada, o lado da receita usa o preço desta planilha, e um preço lembrado ali estraga um segundo documento. A comparação também só acontece se estiver marcada: coloque uma data no calendário e um nome ao lado.

Conferir o que foi feito contra o que foi planejado, e levar o achado para o plano seguinte, é parte regular da gestão de fazendas; mais sobre venda está na seção de comercialização da biblioteca.

Procedência

Deriva de
  1. Irwin, Good, Martines-Filho e Batts, The Pricing Performance of Market Advisory Services in Corn and Soybeans Over 1995-2004: A Non-Technical Summary, AgMAS Project Research Report 2006-03, University of Illinois at Urbana-Champaign, abril de 2006
  2. McNew e Musser, Farmer Forward Pricing Behavior: Evidence from Marketing Clubs, Agricultural and Resource Economics Review 31(2), 2002, 200-210
  3. Kaida e Kaida, Memory load of information encoded amplifies the magnitude of hindsight bias, PLOS ONE 18(4), 2023, e0283969
  4. FAO, Agricultural Producer Price Domain in FAOSTAT, nota metodológica do domínio, Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)
  5. Conab, Preços Agropecuários, Companhia Nacional de Abastecimento
O que este artigo cobre
Somar as vendas liquidadas de uma safra, calcular o preço médio ponderado pelo volume que a fazenda recebeu, comparar o percentual vendido em cada etapa do plano com o percentual que o plano previa e anotar a diferença em pontos percentuais.
O que ele não cobre
Não julga se o preço foi bom, não escolhe por você o preço de referência e não recomenda calendário de vendas. Escrever o plano, anotar os preços ofertados, listar os contratos ainda não liquidados, calcular o custo e definir a margem estão em outros artigos, assim como a análise de mercado e o calendário de pagamentos.
Publicado
Atualizado
Erro encontrado
Aponte um erro e o artigo é corrigido com nota do que mudou.

Como citar este artigo

RURIVIA. Como avaliar a venda da safra: o vendido contra o plano. [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/comercializacao/venda-executada-contra-o-plano/. Acesso em:


Continue lendo

Comercialização

Como rastrear um lote vendido até o talhão

O comprador pergunta de qual talhão veio o lote entregue. A nota fiscal tem o número do lote e o caderno tem os talhões, mas a resposta só existe se os dois trazem o mesmo número desde o dia da entrega.

7 de set. de 2026
Comercialização

Desconto de umidade do milho: calcule antes de entregar

A tabela de desconto do comprador decide quanto a carga paga depois da balança. Uma parte do corte é água que a secagem tiraria de qualquer jeito, e o resto é preço que a tabela fixa.

5 de set. de 2026
Comercialização

Hedge de milho na B3: que preço sobra depois de travar?

A cotação do futuro na tela da corretora não é o que o seu comprador paga. Você recebe essa cotação corrigida pela base do seu ponto de entrega, e a base ainda pode mudar.

1 de set. de 2026
Comercialização

Venda antecipada do milho: vale a pena travar o preço?

A oferta do comprador chega como um preço só, com uma taxa embutida. Tire dela o preço do futuro, compare o que sobra com a base que você espera e trave o volume que cobre o que vence antes da entrega.

1 de set. de 2026

Gestão de Fazendas

Se este artigo fosse uma planta, a gestão da fazenda seria a lavoura inteira.

Planejar, organizar, dirigir e controlar: as quatro funções, o que cada uma decide, e um exemplo da fazenda para cada uma, reunidas numa página só.