Quando o banco que financia o seu gado ou o frigorífico que compra os seus bois pede o histórico de preços, a resposta fácil é o indicador do Cepea, que responde a outra pergunta. O Indicador do Boi Gordo de 22 de outubro de 2026 ficou em R$ 380,55 por arroba de 15 kg, à vista e sem Funrural. A página não traz um número de Mato Grosso do Sul, e a oferta do seu frigorífico é só mais um ponto longe dessa média. Em 120 bois de 15 arrobas, cada R$ 5,00 por arroba de diferença são R$ 9.000. Anote toda semana a oferta do seu frigorífico ao lado do indicador e entregue esse histórico a quem financia ou compra.
A série de preços é uma tabela, em papel ou em planilha, uma por categoria de gado, como boi gordo, com uma linha por semana. No alto ficam o frigorífico e o indicador. Cada linha traz o indicador, a oferta do frigorífico e a diferença entre os dois, que este artigo chama de base. Logo abaixo do alto vem a regra de venda, escrita antes da primeira linha, como “vender um quarto dos bois quando a oferta ficar a menos de R$ 5,00 por arroba abaixo do indicador”.
O indicador do Cepea responde ao que o banco pergunta?
Só em parte. O Cepea define o indicador como o valor à vista por arroba de 15 kg, sem Funrural, o chamado preço livre. Quem vende a prazo olha outro número. A média a prazo do Estado de São Paulo, em 22 de outubro de 2026, foi R$ 384,80 por arroba, calculada da amostra do indicador e da taxa CDI de 30 dias. São R$ 4,25 por arroba acima do valor à vista.
A página não traz um número de Mato Grosso do Sul. O frigorífico que compra os seus bois faz a oferta com as condições dele, de prazo de pagamento, Funrural e frete, e nenhum indicador a registra.
A diferença para o indicador fica igual de uma semana para outra?
Não. Em Itapetinga (BA), de 2012 a 2015, a oscilação típica do preço do boi gordo foi de R$ 12,77 por arroba, e a da base, de R$ 7,87 por arroba. A base oscilou cerca de 62% do que oscilou o preço (R$ 7,87 dividido por R$ 12,77). Os autores leem esse resultado como uma base bem mais previsível que o preço. Mesmo assim, ela não ficou parada.
A base desses autores é o preço à vista menos o preço na bolsa de futuros. A base deste artigo é a oferta do frigorífico menos o indicador. Leia os estudos como indicação do sentido do movimento, não do tamanho.
No boi gordo, de 1995 a 2001, o hedge, a venda na bolsa de futuros para garantir o preço, tirou de 42% a 52% do risco de preço em oito praças. Cerca de metade do risco ficou na base, a parte que a bolsa não cobre.
Quando o indicador sobe R$ 10,00 numa semana e a oferta do frigorífico sobe só R$ 5,00, você vê a diferença crescer na linha daquela semana. O que o indicador não cobre fica nessa diferença, e só uma linha por semana mostra o tamanho dela.
O que entra em cada linha da série?
Uma linha por semana, com a oferta do frigorífico no centro e o indicador ao lado. No alto, escreva a categoria de gado, o frigorífico, as condições de entrega e o indicador do Cepea, com o endereço na internet em que você o lê. Escreva também o dia da semana em que vai pedir a oferta e quantos anos anteriores entram na média.
| Coluna | O que entra nela |
|---|---|
| Data | O dia do calendário, com o ano |
| Hora | A hora em que você recebeu a oferta, não a hora em que anotou |
| Lote | Sexo, peso e acabamento do gado que você de fato venderia, nas palavras do frigorífico |
| Indicador | O valor do Cepea desse dia, em reais por arroba |
| Oferta do frigorífico | O que o frigorífico nomeado no alto ofereceu naquele dia, perguntado a ele, em reais por arroba |
| Base | Oferta menos indicador, escrita como valor e a palavra “abaixo” ou “acima” do indicador |
| Condições | Prazo de pagamento, Funrural e frete, nas palavras do frigorífico |
Os dois preços precisam estar na mesma unidade antes de você subtrair. O indicador é à vista e sem Funrural. Se a oferta vem a prazo ou com o Funrural descontado, escreva isso na coluna das condições, porque parte da base vem daí. Uma oferta de R$ 5.637 por boi de 15 arrobas é R$ 375,80 por arroba: R$ 5.637 dividido por 15. Escreva essa conta na linha.
Leia o indicador e pergunte a oferta ao frigorífico no mesmo dia da semana, na mesma hora. Quando faltar um dos dois, deixe a linha em branco, e nunca junte a oferta com o indicador de outro dia. No estudo de Itapetinga, os autores fizeram o mesmo e descartaram 33 dias em que só um dos dois preços existia. O valor que entrou por uma carga, depois dos descontos do acerto do frigorífico, é outro número. Anote-o numa planilha à parte, dos pagamentos recebidos, e nunca na coluna da oferta.
O que fazer com a série depois de alguns anos?
Para cada mês do ano, escreva a base média, a mais alta e a mais baixa. A média é a base esperada de que você precisa para decidir uma venda a termo ou segurar o gado. A mais alta e a mais baixa mostram quanto um mês pode se afastar dela. Quantos anos entram na média é decisão sua, escrita no alto da série.
Um estudo do boi gordo em Goiás mostra como fica esse quadro depois de quase onze anos. De janeiro de 1997 a outubro de 2007, a base média de cada mês ficou entre R$ 2,49 (novembro) e R$ 3,71 (fevereiro) por arroba abaixo da bolsa. De 1997 a 2002, ela ficou entre R$ 1 e R$ 4 abaixo, salvo em 1999, quando passou de R$ 4 por mais de seis meses, e se espalhou mais de 2003 a 2007.
O preço usado foi a média do estado, e não o de um comprador, e mesmo assim a base mudou de comportamento no meio da série. Use os anos que tiver e reveja o número a cada ano. Com doze linhas semanais dá para comparar esta semana com as onze anteriores, mas ainda não dá para dizer o que é normal para a época.
Escreva a regra de venda antes da primeira linha, porque uma regra escrita depois que os preços entraram pode acabar escrita para caber neles, em geral para o lado de esperar mais um pouco. Escreva qual oferta ou qual base leva a qual decisão, por exemplo “quando a oferta ficar a menos de R$ 5,00 por arroba abaixo do indicador, vender um quarto dos bois”. Depois de alguns anos você pode amarrar a regra à média daquele mês. Ao lado, escreva o nome de quem pode tomar essa decisão sem ligar para ninguém. O piso de qualquer oferta que você aceite é o menor preço aceitável, calculado a partir dos custos da própria fazenda.
Por onde começar
Vinte minutos para fazer a série, dez minutos por semana para mantê-la. Os outros artigos sobre venda estão na biblioteca de comercialização.
A coluna da base serve a três decisões de venda, cada uma com artigo próprio. Antes de aceitar uma oferta a termo, compare a base embutida nela com a base que você espera na entrega, conta feita em travar o preço agora compensa. Antes de fazer hedge, some a base esperada ao preço futuro que você travaria; uma oferta abaixo do indicador reduz a soma, e o resultado é o preço que sobra depois do hedge. Antes de segurar o gado para vender depois, compare a base de hoje com a de costume nos meses seguintes, como em vale a pena esperar para vender.
As três partem da base do seu frigorífico, e não do preço na tela. Qualquer pessoa acha o indicador do ano passado. A base da oferta que o seu frigorífico fez nesta semana só existe se alguém da fazenda a anotou. São dez minutos por semana de gestão de fazendas, e você usa o resultado em toda venda.