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De onde vem o carbono da sua fazenda?

Quando o comprador, a cooperativa ou o banco pedir o número de carbono da fazenda, faça a conta atividade por atividade. Rebanho, lavoura e floresta têm cada um as suas emissões, e a floresta em crescimento desconta carbono do total.

Publicado em Atualizado em 11 min
Neste artigo

Na fazenda de gado, a maior parte do carbono costuma vir do rebanho, não do trator: o metano que o boi arrota ao digerir o capim pesa mais que o diesel. Para saber de onde vem o carbono da sua fazenda, faça a conta uma atividade de cada vez (rebanho, lavoura e floresta plantada), porque quase toda fonte de emissão pertence a uma só. Eduardo de Figueiredo e colegas da Unesp, em artigo publicado no Journal of Cleaner Production em 2017, encontraram esse metano da digestão, que o IPCC chama de fermentação entérica, em 87 por cento das emissões totais do gado de corte em pasto degradado, a maior parcela em todos os sistemas comparados.

Neste ano, um comprador, uma cooperativa ou um banco pode pedir o número de carbono da fazenda, e muitas fazendas não têm esse número. Dá para estimá-lo sem medir nada no campo, com o método Tier 1 do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). O Tier 1 é o mais simples dos três níveis do IPCC: multiplica o que a fazenda já conta (cabeças de gado, quilos de nitrogênio, litros de diesel, hectares de floresta) por fatores padrão publicados. Uma floresta em crescimento age ao contrário e retira carbono do ar, por isso é descontada do total.

Pegue uma fazenda mista. Ela tem 400 cabeças de gado de corte em 600 hectares de pasto e produz 120 toneladas de peso vivo por ano. Planta grão em 400 hectares, aplica 5.000 quilos de nitrogênio e colhe 1.200 toneladas. Tem 5 hectares de eucalipto. O gado gasta 6.000 litros de diesel por ano, a lavoura 8.000 e a floresta 300.

O total sai em dióxido de carbono equivalente (CO₂e) porque pouco do que a fazenda emite é dióxido de carbono: o rebanho solta metano e o adubo, óxido nitroso, e cada um retém muito mais calor que o CO₂. A conta converte cada gás na quantidade de CO₂ que reteria o mesmo calor, e assim as três atividades somam num número só.

A pecuária emite cerca de 736 toneladas de CO₂e por ano, a lavoura cerca de 45 e o combustível da floresta menos de uma, enquanto os 5 hectares de eucalipto retiram cerca de 214. No saldo, a fazenda emite por volta de 568 toneladas, e a pequena floresta compensa pouco mais de um quarto do que o resto emite.

Como separar a fazenda por atividade?

Lance cada fonte de emissão na atividade que a causou. O metano da digestão e do esterco do rebanho vai para a pecuária, o óxido nitroso do adubo de uma lavoura vai para essa lavoura, e o dióxido de carbono do combustível vai para a atividade que o queimou. Dois insumos são divididos, e quem divide é você: o diesel, porque o mesmo combustível move o trator da lavoura e o caminhão do gado, e o nitrogênio, se você aduba o pasto e a lavoura.

A divisão importa para a intensidade de cada produto, isto é, a emissão por quilo de carne ou por tonelada de grão. Esse número deve carregar só o que a própria atividade causou, e dividir o total da fazenda inteira por um só produto o deixaria maior do que é.

Por que a digestão do rebanho pesa mais que o trator?

Porque um animal a pasto arrota dezenas de quilos de metano por ano, e o metano retém vinte e cinco vezes mais calor que o dióxido de carbono ao longo de um século, o fator de conversão do Quarto Relatório de Avaliação do IPCC. O valor padrão do IPCC para um bovino de corte em pasto da América Latina é de 56 quilos de metano por ano. Isso dá 1,4 tonelada de CO₂e por cabeça antes de contar qualquer outra coisa. O nitrogênio da urina e do esterco do animal soma mais uns 375 quilos de CO₂e (a conta está na seção sobre nitrogênio), e cada cabeça fica com cerca de 1,8 tonelada.

Os estudos publicados apontam para o mesmo lado. A equipe da Unesp encontrou o metano da digestão ainda como a maior parcela nos dois sistemas que usavam adubo e outros insumos: 61 por cento no pasto manejado e 51 por cento na integração lavoura-pecuária-floresta. Modernel e colegas, em artigo publicado na Environmental Research Letters em 2013, compararam carne a pasto e de confinamento no Uruguai e encontraram a digestão acima de 46 por cento das emissões em todos os casos, e em 68 por cento no campo nativo. O diesel, que muita gente imagina ser a emissão da fazenda, é a parcela pequena; o rebanho é a grande.

Quanto o nitrogênio acrescenta?

Perto de 4,68 quilos de CO₂e por quilo de nitrogênio aplicado, lançados na atividade que o recebeu. O valor padrão do IPCC é que um por cento do nitrogênio aplicado sai como óxido nitroso; convertido para o peso do gás e multiplicado pelo fator de aquecimento dele, 298, isso dá os 4,68. Conte o nitrogênio, não o adubo: cem quilos de ureia com 46 por cento de nitrogênio são 46 quilos de nitrogênio.

Só que, na fazenda de gado a pasto, o nitrogênio que mais pesa não é o que você compra. É o que os animais deixam na urina e no esterco a cada dia no pasto. No mesmo capítulo do IPCC ele entra como emissão do solo, com um fator que é o dobro do fator do adubo, dois por cento do nitrogênio depositado. Um bovino de corte excreta cerca de 40 quilos de nitrogênio por ano, e as 400 cabeças do exemplo deixam 16 mil quilos no pasto. Isso dá 150 toneladas de CO₂e, um quinto da fazenda inteira, vindas de um número que quase nenhuma planilha de fazenda tem.

Esta estimativa deixa de fora, de propósito, o nitrogênio que escapa como gás amônia ou é levado pela água da chuva e vira óxido nitroso em outro lugar, porque essa parte é bem mais incerta. Deixa de fora também o dióxido de carbono que a ureia solta ao se decompor no solo. E o porco não entra nesta conta de urina e esterco, não porque o fator do IPCC o exclua (ele fixa os mesmos dois por cento para o porco e para o gado), mas porque o suíno da região costuma ser criado confinado, não a pasto, e falta um peso padrão dele para fechar a conta.

Quanto o diesel acrescenta?

Cerca de 2,68 quilos de CO₂e por litro de diesel e 2,27 por litro de gasolina, lançados na atividade que os queimou. Diferente dos gases do rebanho e do solo, este é dióxido de carbono puro, então nenhum fator de aquecimento o multiplica. Os valores por litro saem dos fatores padrão do IPCC para a queima de diesel e gasolina, convertidos pelo conteúdo de energia e pela densidade de cada combustível. Na fazenda de gado a pasto, o combustível é uma parcela pequena do total, e dividi-lo entre lavoura e pecuária deixa certo o número de cada atividade.

Como a floresta reduz o total?

Uma floresta plantada em crescimento retira carbono do ar, então entra com sinal de menos. No capítulo de florestas do IPCC, o crescimento padrão do eucalipto nas Américas é de cerca de 20 toneladas de matéria seca por hectare por ano. Contando o carbono desse crescimento e das raízes e convertendo-o em CO₂, chega-se a cerca de 43 toneladas de CO₂e retiradas por hectare por ano, numa faixa larga, de 13 a 85. É quase trinta e cinco vezes o que um hectare de pasto emite no exemplo, e por isso 5 hectares de eucalipto compensam pouco mais de um quarto da fazenda.

O mesmo capítulo do IPCC traz três ressalvas. O número é o crescimento bruto, e a colheita devolve o carbono, então a floresta em pé não é um estoque permanente. Entram só o tronco e a raiz, sem o solo. E o valor padrão é uma média larga, então o resultado dá a ordem de grandeza da floresta, não um número que alguém possa certificar.

Que número acompanhar em cada atividade?

A intensidade: pelo total você sabe o tamanho das emissões da fazenda, e com a intensidade compara um ano com o outro. No exemplo, a pecuária fica em 1,23 tonelada de CO₂e por hectare de pasto e 6,14 quilos por quilo de peso vivo; a lavoura, em 0,11 tonelada por hectare e 37,4 quilos por tonelada de grão. Esses números caem quando a atividade produz mais com a mesma emissão, mesmo que o total se mantenha ou cresça. O saldo líquido, emissões menos remoções, descreve a fazenda inteira e costuma ser o que o comprador ou o banco pede; com a intensidade você vê se cada atividade está melhorando.

Até onde vai uma estimativa Tier 1?

Com o Tier 1 você chega à ordem de grandeza e sabe quais fontes são as maiores, mas não a um número preciso para a sua fazenda. Os fatores padrão têm uma incerteza que o IPCC estima em trinta a cinquenta por cento na parte animal e bem maior na florestal. A estimativa não é um inventário medido e não substitui um onde se exige certificado.

Um estudo de ciclo de vida completo conta também a fabricação do adubo, o transporte, a cerca e o galpão, e chega a um número mais alto: a equipe de Modernel calculou 16,7 quilos de CO₂e por quilo de peso vivo para a carne de campo nativo no Uruguai, contra 6,14 neste exemplo, que conta só o que acontece dentro da fazenda. A estimativa também não julga a fazenda. Com ela você vê onde estão as emissões e a remoção, e o esforço vai para a fonte que de fato é grande.

Quanto soma a fazenda do exemplo?

A fazenda do exemplo, atividade por atividade, em toneladas de CO₂e.

a fazenda mista do exemplo, a emissão e a remoção de cada atividade em toneladas de CO₂e
Atividade O que entra CO₂e
Pecuária 400 cabeças de corte, 6.000 L de diesel, 600 ha emite 736 t
Lavoura 5.000 kg N, 8.000 L de diesel, 400 ha emite 45 t
Floresta 5 ha de eucalipto, 300 L de diesel remove 214 t, emite menos de 1 t
Fazenda emissões 781,6 t − remoções 213,7 t líquido 567,9 t (emissor)

Cálculo da Rurivia a partir dos fatores padrão Tier 1 do IPCC aplicados ao rebanho, ao nitrogênio, ao diesel e à área de eucalipto da fazenda do exemplo.

Por onde começar

Reserve uma hora com as notas de combustível, as notas de adubo e os registros do rebanho do ano. A calculadora de pegada de carbono deste site aplica os mesmos fatores do IPCC atividade por atividade e gera um relatório para imprimir; você informa o que só a fazenda sabe: o número de cabeças, a divisão do combustível e as áreas. A lista de tarefas cobre o que a calculadora não tem como saber e o que você decide fazer com o número.

O número fica velho assim que o rebanho, a lavoura ou a área plantada mudam, por isso mantenha o ano ao lado dele. Um talhão de eucalipto cortado neste inverno deixa de retirar carbono e passa a devolvê-lo, e quem guardou o relatório do ano passado vê o saldo mudar e sabe por quê.

Esse mesmo número líquido, com o ano e a fonte, preenche a linha ambiental de um primeiro relatório de ESG com o que você já mede, o artigo sobre montar esse relatório com os registros que a fazenda já tem. Ele também resolve uma linha da lista de riscos da fazenda, o artigo sobre ordenar os riscos da fazenda por probabilidade e impacto, onde a exigência de carbono do comprador, sem o número, recebe a pontuação de impacto no palpite. Outros artigos sobre os registros ambientais da fazenda estão na seção de sustentabilidade. Comparar este número a cada ano com o anterior é o tipo de checagem de rotina em que a gestão de fazendas se apoia.

Ferramenta

A ferramenta faz a conta e deixa o juízo com você.

Você digita os seus números e o resultado atualiza sozinho. Nada do que você digita sai do seu aparelho.

Procedência

Deriva de
  1. Dong, Mangino, McAllister e outros, Emissions from Livestock and Manure Management, Capítulo 10, Diretrizes do IPCC de 2006 para inventários nacionais de gases de efeito estufa, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  2. De Klein, Novoa, Ogle e outros, N2O Emissions from Managed Soils, and CO2 Emissions from Lime and Urea Application, Capítulo 11, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  3. Aalde, Gonzalez, Gytarsky e outros, Forest Land, Capítulo 4, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 4, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  4. Garg, Kazunari e Pulles, Introduction, Capítulo 1, Diretrizes do IPCC de 2006, Volume 2 (Energia), Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2006
  5. Forster, Ramaswamy, Artaxo e outros, Changes in Atmospheric Constituents and in Radiative Forcing, Capítulo 2, Mudança do Clima 2007: A Base Científica Física, Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, Grupo de Trabalho I, 2007
  6. de Figueiredo, Jayasundara, de Oliveira Bordonal e outros, Greenhouse gas balance and carbon footprint of beef cattle in three contrasting pasture-management systems in Brazil, Journal of Cleaner Production 142, 2017
  7. Modernel, Astigarraga e Picasso, Global versus local environmental impacts of grazing and confined beef production systems, Environmental Research Letters 8(3), 2013
O que este artigo cobre
Estimar as emissões anuais de gases de efeito estufa da fazenda em CO₂e com os fatores padrão do IPCC (o método Tier 1), atividade por atividade; calcular a emissão de cada atividade por hectare e por unidade de produto; e descontar o carbono que uma floresta em crescimento retira para chegar ao total líquido.
O que ele não cobre
Medir as emissões no campo, fazer um estudo de ciclo de vida completo, certificar uma pegada ou um crédito de carbono, ou dizer como cortar uma fonte específica. Os fatores padrão dão uma ordem de grandeza, e reduzir emissões é assunto da agronomia da própria fazenda.
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Como citar este artigo

RURIVIA. De onde vem o carbono da sua fazenda? [S. l.], 31 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/sustentabilidade/de-onde-vem-o-carbono-da-fazenda/. Acesso em:


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