O plano de treinamento da fazenda é uma tabela. Cada linha nomeia uma tarefa que uma pessoa ainda não sabe fazer, quem vai aprendê-la, o mês em que a tarefa começa e o custo. Escreva as linhas como tarefas, não como nomes de curso, e confira cada uma no fim do ano vendo a tarefa feita. No exemplo abaixo, um ano de treinamentos custa R$ 2.540, e esse dinheiro não compra nada se o serviço continua igual depois. O conhecimento some depressa: num curso americano para supervisores, a pontuação média no teste subiu de 82% para 89% e caiu para 83% em três meses, e dos 7,6 pontos ganhos sobraram 1,3.
Por que um curso sozinho não muda o serviço?
O curso americano era um treinamento on-line para quem supervisiona jovens trabalhadores agrícolas, a maioria professores de educação agrícola. A pontuação média no teste de conhecimento era de cerca de 82% antes do curso, 89% logo depois e 83% três meses mais tarde. O ganho foi de 7,6 pontos, e sobraram 1,3. O que os supervisores disseram fazer mais foi falar de segurança em mais situações. Isso veio de questionário, sem grupo de comparação, e portanto indica um rumo e não mede um efeito.
Madalina Coman e colegas reuniram 36 estudos sobre treinamento de saúde e segurança para agricultores e trabalhadores rurais. Palestra, vídeo ou manual sozinhos tiveram resultado mais fraco no que as pessoas passaram a fazer. Os programas feitos com a participação da comunidade foram melhores. Os estudos diferiam demais em método e contexto para somar um número só, então leia isso como um rumo.
Por isso cada linha do plano nomeia uma habilidade. O guia de treinamento da Cornell abre a etapa de planejamento perguntando o que a pessoa saberá, ou conseguirá fazer, depois. Depois pede ao instrutor que liste o conhecimento, as habilidades ou as atitudes de que ela precisa. O nome de um curso não responde a nenhuma das duas perguntas. Uma tarefa responde: não sabe regular a vacina na seringa, não sabe registrar o lote, não sabe medir o capim.
De onde sai a lista de lacunas?
A lista sai das tarefas que alguém faz quando você não está olhando. Faça uma grade: as tarefas nas linhas, as pessoas nas colunas, e uma marca onde a pessoa faz a tarefa. Cada marca em que ninguém nunca ensinou a tarefa àquela pessoa é uma lacuna. Se a fazenda tem uma descrição escrita para cada função, copie as tarefas dela em vez de listar de memória. O plano plurianual de produção, onde você escreve o que a fazenda vai produzir nos próximos ciclos, mostra as tarefas que vêm aí. Por isso é um ponto de partida melhor que um catálogo de cursos.
Duas pessoas ficam de fora da grade quase sempre: você, e quem assumiria as suas decisões, nomeado no plano de sucessão escrito.
Ao lado de cada lacuna, escreva por que a tarefa importa. O guia da Cornell diz que aprende-se mais rápido, com mais força e por mais tempo quando se sabe o motivo. Para achar uma lacuna que ninguém aponta, pergunte a cada pessoa, em separado, aonde a fazenda quer chegar neste ano. Quem responde com um palpite recebeu a ordem sem o motivo, e esse motivo é uma lacuna a ensinar.
O exemplo deste artigo é uma fazenda de cria e recria em Mato Grosso do Sul, com quatro pessoas. Todos os valores são inventados para o exemplo. A grade mostra três lacunas.
Em que mês cada linha entra, e quanto custa?
O mês de cada linha é o mês em que a pessoa faz a tarefa pela primeira vez, porque o treinamento vem antes da tarefa. A NR-31, a norma de segurança e saúde no trabalho rural, manda que o treinamento inicial aconteça antes de o trabalhador começar as suas funções. Quando uma norma fixa uma data de repetição, a linha usa a mais cedo entre a da norma e a sua. Para quem acaba de ser contratado, esse dia está na lista do primeiro dia, a página que o novo funcionário assina pelo que recebeu e viu antes de começar. Para quem já está na fazenda, é o dia em que assume a tarefa nova.
Escreva o custo esperado na linha antes de o ano começar, e o treinamento vira uma despesa planejada, como o diesel. Se você o deixa de fora, ele fica com o dinheiro que sobrar. Some o instrutor ou a inscrição e o dia pago de cada pessoa que participa. A mesma norma diz que o tempo gasto no treinamento conta como trabalho efetivo, e por isso o dia pago entra na conta. Copie o total para o orçamento de médio prazo, ao lado das outras despesas, para comparar depois com o que você gastou.
O plano pode valer de três a cinco anos, porque algumas lacunas levam mais de um ano para fechar. É o caso do contratado que aprende uma tarefa por safra e da máquina que chega no ano que vem. Esse horizonte é uma recomendação, não uma regra. Você executa o plano um ano de cada vez, num calendário, e a lacuna que não fechou passa para o ano seguinte.
Quando a norma exige certificado, ela também lista o que ele deve trazer. Na NR-31, o certificado traz o nome do trabalhador, o conteúdo, a carga horária, a data e o local. Traz também o nome e a qualificação dos instrutores e a assinatura do responsável técnico. A assinatura do trabalhador consta no certificado ou na lista de presença. O empregador arquiva uma cópia, em papel ou em arquivo eletrônico. Você não precisa desenhar o formulário, porque a norma já desenhou, e nada impede que você guarde o mesmo registro para cada linha do plano.
Vale mandar a equipe a um dia de campo?
Ver uma prática funcionando num campo, e conversar sobre ela, pode mudar o que as pessoas decidem experimentar. Em Odisha, na Índia, Kyle Emerick e Manzoor Dar entregaram 25 kg de uma variedade nova de arroz a agricultores de 100 vilas. Em 50 delas, sorteadas, fizeram um dia de campo, uma reunião de duas horas na lavoura. Onde houve o dia de campo, a adoção da semente nova subiu de 30% para 42% dos agricultores.
Eram pequenas lavouras de arroz na Índia, então o resultado não é previsão para a sua. O que vale levar é o mecanismo: ir ver muda o que as pessoas topam experimentar.
Mande quem vai usar o que for mostrado, como o peão que vai medir o capim, e não só você. Isso é uma recomendação, e o estudo não a testou. Coloque cada dia de campo no calendário com data e custo, como qualquer sessão, porque uma viagem sem data e sem dinheiro reservado perde para o serviço do dia. Na volta, escreva uma frase enquanto a lembrança está fresca: a coisa mais útil que viu, a mudança que vai fazer e uma data para conferir se aconteceu.
Que linha escrever primeiro, e quando conferir?
Escreva primeiro a linha da tarefa em que um erro custa mais, e dê a ela o mês anterior ao primeiro dia. Depois preencha o resto do ano.
No fim do ano, cada linha fecha ou não fecha. Isso só se confere porque a lacuna foi escrita como tarefa antes da sessão, e não depois como título de curso. Uma linha que diz que o peão não sabe registrar o lote da vacina tem um fechamento: ou ele registra um na sua frente, ou não registra. Uma linha com o nome de um curso pode ser frequentada e nunca fechada, porque nada foi declarado para medir a frequência. A lacuna que não fechou passa para o ano seguinte com o nome de quem responde por ela.
Reserve uma tarde, e leve a lista de quem faz o quê na fazenda e o orçamento do ano.
As normas foram escritas para tarefas que podem machucar alguém, e um erro na maioria das outras tarefas só custa dinheiro. Escrever o que deve acontecer e depois conferir o que aconteceu é o hábito do produtor rural que dirige a fazenda como negócio. A gestão de fazendas do dinheiro e da lavoura vale também para o que as pessoas sabem fazer. Por isso o plano mora em planejamento da fazenda e não numa gaveta de folhetos. Depois de algumas revisões, olhe primeiro a lacuna que continua aberta há três revisões, passada de um responsável para o outro sem fechar.