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Plano de sucessão da fazenda: quem decide o quê e quando

O sucessor costuma receber primeiro as decisões técnicas e por último as de dinheiro, que são as que a fazenda precisa tomar na semana em que o dono falta. O plano escrito dá nome e data a cada decisão.

Publicado em Atualizado em 15 min
Neste artigo

Em 12 de junho de 2028, a família abre o inventário de uma propriedade de 85 hectares de milho, soja e leite no oeste de Santa Catarina. O dono morreu em abril, aos 71 anos. Os dois filhos trabalham ali há 15 anos, mas o banco só conhece o pai. O financiamento de custeio da safra de verão, R$ 168.000, precisa estar contratado até agosto, e nenhum dos dois jamais negociou com o gerente. Se o crédito não sair, R$ 168.000 em sementes, adubo e ração ficam sem comprar. (A propriedade e todos os valores desta cena são inventados para o exemplo.) O plano de sucessão escrito evita esse mês. A família registra oito decisões da fazenda e, para cada uma, quem decide hoje, quem vai decidir e a partir de quando. Dê às decisões de dinheiro as primeiras datas, porque sozinhas elas passam por último. Preencha as oito linhas ainda este mês.

Quem dirige as fazendas está mais velho. No Censo Agropecuário de 2017, 23,2% dos estabelecimentos eram dirigidos por produtores rurais de 65 anos ou mais, contra 17,5% em 2006. A parcela dirigida por quem tinha menos de 35 anos caiu de 16,9% para 11,3%, somando as faixas de menos de 25 anos e de 25 a 34 anos.

Em que ordem as decisões passam do dono para o sucessor?

As decisões técnicas passam primeiro e as de dinheiro por último. Em 2008, Uchiyama e colegas compararam levantamentos com donos de fazenda da Inglaterra, do Canadá, dos Estados Unidos e do Japão que já tinham sucessor. Cada dono pontuou cada decisão de 1 (ele decide tudo) a 5 (o sucessor decide tudo). Em todos os países, menos no Japão, a passagem começava pelas decisões técnicas e terminava nas financeiras. No Japão a diferença foi pequena demais para confirmar a ordem.

Lobley, Baker e Whitehead compararam nove regiões em 2010: Inglaterra, Ontário, Quebec, cinco estados americanos e a Austrália. Decidir quando pagar as contas foi a decisão que os pais mais seguravam em oito das nove regiões, e buscar e negociar empréstimos e financiamento foi a segunda, também em oito. Decidir quando pagar as contas define o caixa da fazenda: qual pagamento sai primeiro e qual espera. Os autores chamam essa ordem de escada da sucessão, descrita pela primeira vez na Irlanda, nos anos 1970. O sucessor sobe do trabalho do dia a dia até as decisões de dinheiro, no alto.

No Brasil, Mello e colegas publicaram em 2003 uma pesquisa feita em 2000 com 116 famílias de agricultores do oeste de Santa Catarina. Em cada família, entrevistaram o pai, um rapaz e uma moça. O filho já era o responsável pela propriedade em só 6% delas, embora 68% dos rapazes dissessem participar mais das decisões do que antes. Em 42% das respostas o pai controlava todas as atividades e todos trabalhavam em todas, e em 18% ele controlava tudo e dividia o trabalho. Juntas, 60%. Os autores descrevem esse poder sobre a gestão como praticamente absoluto.

Figura: O que a pesquisa encontrou em 116 famílias de agricultores do oeste de Santa Catarina, em 2000. Fonte: Mello e colegas (2003)
No oeste de Santa Catarina, o pai ainda decidia quase tudoFamílias de agricultores do oeste de Santa Catarina, 2000. O filho era o responsável pela propriedade em 6% delas. 68% dos rapazes diziam participar mais das decisões do que antes. Em 60% das propriedades o pai controlava todas as atividades, e esse poder sobre a gestão era praticamente absoluto.Propriedades em que o filho já erao responsável6%Rapazes que diziam participar maisdas decisões do que antes68%Propriedades em que o pai controlavatodas as atividades60%

A pesquisa catarinense é regional e tem mais de vinte anos. Ela aponta no mesmo sentido das internacionais: o pai segura por muito tempo as decisões, mesmo com filhos adultos trabalhando ao lado.

Por que as decisões de dinheiro ficam para o fim?

As pesquisas sugerem quatro motivos: o dono vive da renda da fazenda, pode não querer confiá-la a alguém mais novo, só passa a terra no fim e quase não conversa sobre a passagem.

Sobre a renda, Sappey e colegas, num estudo australiano de 2012, sugerem que a demora em passar a gestão pode vir da dependência que o produtor rural ainda tem, em parte, da renda da fazenda. Uchiyama e colegas levantam a hipótese de que o dono não queira confiar a própria aposentadoria a um membro mais novo da família. Passar a decisão de quando pagar as contas é passar junto o controle da renda de quem vai se aposentar. Em Santa Catarina, 36% dos pais responderam que a sucessão só teria lugar quando o responsável não tivesse mais condições de dirigir a propriedade. Só 22% aceitavam passar o poder de gestão quando o sucessor estivesse preparado.

Sobre a terra, Sappey e colegas registram que, na Austrália, em muitos casos a propriedade só passa por inteiro ao sucessor depois da morte do produtor rural. O controle do dinheiro e as decisões de longo prazo do negócio podem então atrasar por anos.

Sobre a conversa, na pesquisa catarinense, 47% dos rapazes e 53% das moças disseram que ainda não se tinha discutido o melhor momento de passar o controle da propriedade.

Figura: O que os pais e os filhos disseram sobre a hora de passar o controle, oeste de Santa Catarina, 2000. Fonte: Mello e colegas (2003)
A hora de passar o controle quase não foi conversadaOeste de Santa Catarina, 2000. 36% dos pais disseram que a sucessão só teria lugar quando o responsável não pudesse mais dirigir. 22% passariam o poder quando o sucessor estivesse preparado. Para 47% dos rapazes e 53% das moças, o melhor momento ainda não tinha sido discutido.Pais: a sucessão só quando o responsávelnão puder mais dirigir36%Pais: passam o poder quando o sucessorestiver preparado22%Rapazes: o melhor momento não foi discutido47%Moças: o melhor momento não foi discutido53%

O que custa deixar a passagem para o fim?

A maior parte da passagem sobra para os últimos anos, ou para um dia só, se o dono faltar de repente. Uchiyama e colegas mediram quanto faltava passar cinco anos antes da aposentadoria planejada do dono. Nas amostras da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Japão a passagem não tinha chegado à metade, e só no Canadá tinha passado dela. Os autores chamam o que vem depois de arrancada final: o sucessor sobe às pressas os degraus que faltam. Eles apontam o risco para a continuidade da fazenda quando alguém sem experiência de decidir assume tudo de uma vez.

Se o dono faltasse de repente, nem a arrancada existiria. O sucessor assumiria tudo num dia. A primeira negociação de financiamento da vida dele cairia na semana mais difícil da família, diante de um banco que até ali só tratava com o pai. Essa é a cena da abertura.

A idade do dono é um mau motivo para esperar. Num levantamento de 2023 com 403 produtores rurais dos Estados Unidos, Lippsmeyer e colegas encontraram que ter plano de sucessão escrito quase não dependia da idade de quem dirigia a fazenda. As fazendas com plano também mantinham outras práticas por escrito com mais frequência: 68% delas tinham contratos de arrendamento escritos, contra 52% das fazendas sem plano. Os autores avisam que os dados não mostram o que causa o quê.

Figura: O calendário da propriedade do exemplo sem plano escrito. Propriedade e valores inventados para o exemplo
Sem plano, as decisões de dinheiro chegam juntas, depois da morte do donoPropriedade do exemplo. Até abril de 2028, os filhos cuidam do trabalho do dia a dia e o pai decide sozinho banco, contas e vendas. Em abril de 2028 o pai morre. Em 12 de junho de 2028 a família abre o inventário. Em agosto de 2028 o custeio de R$ 168.000 precisa estar contratado.Até abril de 2028Filhos: o trabalho do dia a dia.Pai sozinho: banco, contas e vendas.Abril de 2028O pai morre, aos 71 anos.12 de junho de 2028A família abre o inventário.Agosto de 2028O custeio de R$ 168.000 precisa estarcontratado. Nenhum filho negociou antes.

O que o plano de sucessão resolve que o testamento não resolve?

O testamento resolve de quem é a terra. O plano resolve quem decide na fazenda enquanto o dono está vivo. O estudo australiano de Sappey e colegas separa as duas coisas. O planejamento da sucessão prepara o plano do negócio antes da morte ou da aposentadoria dos donos, à parte do planejamento da herança, que em geral toma a forma de um testamento. Eles citam um esquema do pesquisador Andrew Errington, da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, com três etapas.

Figura: As três etapas do esquema que Sappey e colegas citam, e quem cuida de cada uma
Sucessão, aposentadoria e herança são três etapasSucessão: a gestão passa aos poucos, uma decisão por vez, com o dono ainda presente. Aposentadoria: o dono se afasta do dia a dia. Herança: os bens mudam de nome no fim, trabalho de advogado e de contador.1. SucessãoA gestão passa aos poucos, uma decisãopor vez. A família escreve.2. AposentadoriaO dono se afasta do dia a dia.3. HerançaOs bens mudam de nome no fim.Trabalho de advogado e de contador.

Testamento, holding e outras estruturas societárias passam os bens, e cuidar delas é trabalho de advogado e de contador na jurisdição de quem lê. As decisões são outra coisa: a família as passa uma por uma, com o dono ainda presente. Uma delas passa mesmo que ninguém a decida. Quem assume a fazenda assume também o jeito de declarar os impostos dela, sem tê-lo escolhido e muitas vezes sem os papéis que o explicam. Um artigo à parte, sobre registrar o regime tributário e quem o escolheu, mostra o que essa escolha deixa amarrado.

Qual decisão passa primeiro ao sucessor, e em que data?

Para cada decisão: quem toma hoje, quem vai tomar e a partir de quando. As linhas seguem o agrupamento das pesquisas de Uchiyama e de Lobley, com as técnicas no alto e as de dinheiro embaixo. As do meio mudam de ordem de uma região para outra. Cada linha só vale com um nome na terceira coluna e uma data na quarta.

O nome entra na terceira coluna mesmo sem sucessor escolhido. Cada decisão pode ir para uma pessoa de confiança do dono: o cônjuge, um irmão ou o gerente da fazenda. A decisão que ninguém da fazenda pode assumir vira vaga de emprego, preenchida por um processo de contratação escrito, com os requisitos definidos antes.

As decisões da fazenda, das técnicas às de dinheiro, com quem toma cada uma hoje e a partir de quando muda de mãos
Decisão Quem decide hoje Quem vai decidir A partir de quando
Plano do dia e jeito de fazer o trabalho
Que insumos usar e quando fazer cada operação
Plano do ano e que atividades manter
Contratar e acompanhar a equipe
Quando vender e a negociação da venda
Investimento em máquina e benfeitoria, compra ou venda de terra
Buscar e negociar financiamento
Quando pagar as contas
Figura: A propriedade do exemplo com plano escrito em novembro de 2026: a data em que cada decisão de dinheiro passa ao filho. Propriedade e valores inventados para o exemplo
Com plano, as decisões de dinheiro passam antes de o dono faltarPropriedade do exemplo. Em 15 de janeiro de 2027, o filho mais velho vai à reunião do financiamento. Em 1º de julho de 2027, decide quando pagar as contas. Em 1º de outubro de 2027, decide a venda da safra. Todas as linhas da tabela têm nome antes de 2028.15 de janeiro de 2027Financiamento: ele vai à reunião dosR$ 168.000, o pai ao lado.1º de julho de 2027Contas: ele decide quando pagar.1º de outubro de 2027Vendas: ele decide a venda da safrae negocia o preço.Abril de 2028Se o pai faltar, todas as linhasda tabela já têm nome.

Duas práticas ajudam a cumprir as datas. A primeira é entregar ao sucessor uma atividade inteira, com o dinheiro dela: uma área arrendada, as novilhas de reposição ou a venda de uma cultura. Com a conta, as compras e o resultado dela na mão do sucessor, é o primeiro degrau de dinheiro a subir com o dono ainda ao lado. No levantamento de Uchiyama, os sucessores recebiam mais decisões quando tinham um negócio próprio dentro da fazenda, embora a pesquisa não mostre o que veio antes.

A segunda é uma reunião da família a cada poucos meses, em que alguém lê a tabela em voz alta. Se ninguém confere, a data passa e a decisão fica com o dono. Conferida a cada reunião, a passagem vira rotina da gestão da fazenda, junto do orçamento do ano e da venda da safra. Para contar em um minuto quantas decisões ainda dependem só de você, faça o mini-diagnóstico de sucessão.

Procedência

Deriva de
  1. IBGE, Agência de Notícias, Censo Agro 2017, população ocupada nos estabelecimentos agropecuários cai 8,8%, 25 de outubro de 2019
  2. Mello, Abramovay, Silvestro, Dorigon, Ferrari e Testa, Sucessão hereditária e reprodução social da agricultura familiar, Agricultura em São Paulo 50(1), 2003, 11-24
  3. Uchiyama, Lobley, Errington e Yanagimura, Dimensions of intergenerational farm business transfers in Canada, England, the USA and Japan, Japanese Journal of Rural Economics 10, 2008, 33-48
  4. Lobley, Baker e Whitehead, Farm succession and retirement, some international comparisons, Journal of Agriculture, Food Systems, and Community Development 1(1), 2010, 49-64
  5. Sappey, Hicks, Basu, Keogh e Gupta, Succession Planning in Australian Farming, Australasian Accounting, Business and Finance Journal 6(4), 2012, 94-110
  6. Lippsmeyer, Langemeier, Mintert e Thompson, Factors Impacting Succession Planning, farmdoc daily 13(163), 2023
O que este artigo cobre
A ordem em que as decisões da fazenda passam ao sucessor, por que as de dinheiro passam por último, o que isso custa quando o dono falta de repente, por que idade e falta de sucessor escolhido não justificam esperar, e como escrever a data em que cada decisão muda de mãos.
O que ele não cobre
Direito sucessório, partilha entre herdeiros, tributação e estrutura societária ou holding, que são trabalho de advogado e de contador na jurisdição de quem lê. Também não diz quem deveria ser o sucessor.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Plano de sucessão da fazenda: quem decide o quê e quando. [S. l.], 24 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/planejamento/plano-de-sucessao-escrito/. Acesso em:


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