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Como ratear custos entre lavoura e pecuária na fazenda

Critério de rateio é a regra escrita de por qual base cada custo comum se divide. Escrito antes da conta, impede que a base escolhida decida qual atividade parece lucrativa.

Publicado em Atualizado em 13 min
Neste artigo

Critério de rateio é a regra escrita de por qual base cada custo comum se divide: horas, hectares, cabeças ou receita. Você a escreve antes de olhar qualquer resultado, para repartir cada custo entre as atividades da fazenda, como a soja e a recria. Recria é a fase do gado entre a desmama e a terminação. Uma fazenda de 600 hectares no sudoeste de Goiás tem soja e recria. Seus R$ 120.000 por ano de trator e galpão caem como R$ 72.000 na soja se você divide pelas horas de trator, e como R$ 90.000 se divide pela receita. São R$ 18.000 de diferença, sem mudar uma máquina. Para saber qual atividade se paga, escreva a base de cada custo comum primeiro e date a ficha. Calcule os resultados só depois.

Que custos da fazenda servem a mais de uma atividade?

Custo comum é a conta que paga mais de uma atividade e não tem nota fiscal ligada a uma só delas. A fazenda do exemplo tem quatro, mostrados na figura abaixo: o trator e o galpão, os juros do financiamento de custeio, o escritório e o contador, e os impostos da fazenda. Somam R$ 300.000 por ano. A depreciação, o valor pago por uma máquina ou construção distribuído pelos anos de uso, entra na primeira linha.

Figura: Os quatro custos comuns da fazenda do exemplo no sudoeste de Goiás, em reais por ano. Fonte: valores inventados para o exemplo
Quatro custos comuns somam R$ 300.000 por anoFazenda do exemplo, valores inventados. Trator e galpão, R$ 120.000. Juros do custeio, R$ 96.000. Escritório e contador, R$ 54.000. Impostos da fazenda, R$ 30.000. Total, R$ 300.000 por ano.Custos comuns, reais por anoTrator e galpãoR$ 120.000Juros do custeioR$ 96.000Escritório e contadorR$ 54.000Impostos da fazendaR$ 30.000Total: R$ 300.000 por ano

Cada um se esconde num lugar diferente. O honorário do contador sai por débito todo mês. Os juros ficam no extrato, no meio das parcelas do financiamento. O trator e o galpão foram pagos anos atrás, e nenhuma nota nova lembra deles. A Conab conta os juros de financiamento pagos para o custeio da atividade como custo de produção, ao lado da semente e do combustível.

Qual o tamanho da pilha? Em fazendas mistas dos Alpes suíços, os pesquisadores Gazzarin e Lips, da Agroscope, colocam os custos comuns em 60 a 70 por cento do custo total. Mesmo sem pagar o trabalho da própria família, a parte passa de 50 por cento. É uma região de montanha, com construções e máquinas caras, então a parte na sua fazenda será outra. Liste a sua: toda conta que paga mais de uma atividade, com as atividades que ela atende e as que ela nunca toca.

Por qual base cada custo comum se divide?

Por algo que acompanhe a natureza do custo. O manual da FAO sobre custo de produção agrícola fixa isso como regra para toda chave de rateio. Ele veda dois atalhos: nada de área de terra para despesa de gado que não pertence a um produto só, e nada de contagem de animais para despesa de lavoura do mesmo tipo. Para um trator usado em várias lavouras, o manual cita a área cultivada, as horas de uso ou as passadas em cada talhão como chaves possíveis. A Conab divide as construções por uma taxa de ocupação, o percentual de uso do bem por uma lavoura.

Dentro do rebanho a escolha também pesa. Aranha, Dias e Ítavo, num artigo de 2016 sobre a contabilidade da pecuária de corte, observam que o custo indireto costuma ser dividido por cabeça. Assim se cobra de um bezerro o mesmo que de uma vaca. No exemplo trabalhado por eles, a divisão por cabeça superavaliou os animais jovens e leves. Os autores propõem a unidade animal, que corresponde a 450 quilos de peso vivo. O exemplo foi feito no papel, com 230 animais, e só a direção do erro vale como lição.

Para a despesa geral sem ligação física com nenhuma atividade, como as despesas gerais do negócio, a FAO diz que é aceito dividir pela contribuição de cada atividade na margem líquida da fazenda inteira. Se a margem líquida não existe, aceita a margem bruta (receita menos os custos que variam com a produção) ou a receita bruta. A ficha da fazenda do exemplo usa base física em todas as linhas. Para cada uma das suas, escreva a base e uma frase de motivo.

Figura: A ficha do critério de rateio da fazenda do exemplo, uma linha por custo comum. Fonte: valores inventados para o exemplo
Uma linha por custo comum: a base e o motivoTrator e galpão, R$ 120.000, divididos por horas de trator porque o custo acompanha o tempo de máquina. Juros, R$ 96.000, divididos por reais financiados em cada atividade porque o juro acompanha o dinheiro emprestado. Escritório e contador, R$ 54.000, divididos por horas de contador faturadas porque o honorário acompanha o tempo cobrado. Impostos da fazenda, R$ 30.000, divididos por hectares porque o imposto acompanha a terra. Escrito e datado antes da conta.Ficha do rateio, fazenda do exemploTrator e galpão, R$ 120.000Dividido por: horas de tratorMotivo: o custo acompanha o tempo de máquinaJuros do custeio, R$ 96.000Dividido por: reais financiados por atividadeMotivo: o juro acompanha o dinheiro emprestadoEscritório e contador, R$ 54.000Dividido por: horas de contador faturadasMotivo: o honorário acompanha o tempo cobradoImpostos da fazenda, R$ 30.000Dividido por: hectaresMotivo: o imposto acompanha a terraEscrito e datado antes da conta

Quanto a escolha da base mexe nos números?

O bastante para mudar o valor e, às vezes, qual atividade parece a boa. O manual da FAO traz um exemplo das Filipinas. Uma fazenda tem 3,50 hectares em três parcelas e um trator, e a pergunta é quanto do custo do trator vai para uma parcela de arroz de 2,00 hectares. Dividido pela área da fazenda toda, essa parcela carrega 57 por cento. Se antes você pergunta se o trator trabalhou nas outras parcelas e descobre que só trabalhou no arroz, a mesma parcela carrega 67 por cento. O trator fez o mesmo serviço nas duas contas, e os dez pontos mudaram por causa de uma pergunta feita antes de dividir.

A fazenda do exemplo mostra o mesmo em reais. Tem 400 hectares de soja e 200 de pasto para a recria, e a soja ocupou 150 das 250 horas de trator no ano.

Figura: A parte da soja nos R$ 120.000 de trator e galpão, por hectares e por horas de trator. Fonte: valores inventados para o exemplo
O mesmo custo de trator e galpão cai diferente na sojaFazenda do exemplo, valores inventados. Dividido por hectares, 400 de 600, a soja carrega R$ 80.000. Dividido por horas de trator, 150 de 250, a soja carrega R$ 72.000. A diferença é de R$ 8.000.Parte da soja nos R$ 120.000Por hectares: 400 de 600R$ 80.000Por horas de trator: 150 de 250R$ 72.000Mesmo trator, mesmo galpão:R$ 8.000 mudaram de lugar

Qual base anda quando o preço anda?

Toda base que é a receita. Gazzarin e Lips revisaram os métodos de ratear custo na fazenda e concluem que dividir pelo que cada atividade rende serve mal para análise, porque o nível do custo acaba fixado pelos preços de mercado. Eles listam como chaves físicas as horas de trabalho, as horas de trator, a área e as unidades de gado. Uma chave física mal escolhida erra do mesmo jeito todo ano, e então você acha o erro e o corrige.

Na fazenda do exemplo, a soja rendeu R$ 900.000 no ano 1 e a recria R$ 300.000. No ano 2 o preço da soja caiu e a soja rendeu R$ 600.000, enquanto a recria seguiu em R$ 300.000.

Figura: A parte da soja nos R$ 120.000, por horas de trator e por receita, em dois anos. Fonte: valores inventados para o exemplo
Pela receita a parte da soja anda com o preço; pelas horas, ficaFazenda do exemplo, valores inventados. Ano 1, soja rendeu R$ 900.000: por horas de trator R$ 72.000, por receita R$ 90.000. Ano 2, soja rendeu R$ 600.000: por horas de trator R$ 72.000, por receita R$ 80.000.Ano 1: soja rendeu R$ 900.000Por horas de tratorR$ 72.000Pela receitaR$ 90.000Ano 2: soja rendeu R$ 600.000Por horas de tratorR$ 72.000Pela receitaR$ 80.000As horas não mudaram entre os anos.

Métodos públicos também já trocaram de base e publicaram a troca. A documentação das estimativas de custo do USDA mostra o método antigo, que dividia a despesa geral da fazenda pelo valor da produção de cada cultura. Ao lado dele há um método posterior que divide os mesmos custos pelas margens brutas relativas. Os dois estão impressos, e o leitor vê o que mudou. É isso que torna utilizáveis as bases de receita e de margem. Marque na sua ficha todo custo que você divide assim e não compare dois anos através de uma troca como se nada tivesse mudado. O mesmo vale para o menor preço aceitável, o preço de equilíbrio, cuja linha de custo anda se o rateio segue a receita.

O que escrever primeiro, e em quanto tempo?

Uma tarde, com a lista dos custos comuns e doze meses de extrato sobre a mesa. Escolha um dia em que ninguém espera resposta sobre atividade nenhuma, porque a regra única é que quem escreve a base não calcula antes o resultado das atividades. A linha do trator pede a leitura do horímetro. Dois outros artigos desta biblioteca cobrem o resto. O custo de manutenção por máquina transforma a leitura em custo por hora, e conduzir a fazenda como negócio é o assunto da seção de gestão de fazendas.

Figura: A ordem de trabalho na ficha do critério de rateio. Fonte: os passos deste artigo
Os quatro passos da ficha do critério de rateioAntes da conta: listar os custos comuns, escrever a base e uma linha de motivo, datar e assinar a ficha. Depois: calcular o resultado de cada atividade. No ano seguinte: usar a mesma ficha, ou escrever qual base mudou e quando.Antes da conta1. Listar os custos comuns2. Escrever a base e o motivo3. Datar e assinar a fichaDepois4. Calcular o resultado de cada atividadeNo ano seguinteMesma ficha, ou escreva o que mudou

Um rateio errado, mas escrito e datado, pode ser conferido e corrigido; o que ninguém escreveu, não.

Procedência

Deriva de
  1. FAO, Handbook on Agricultural Cost of Production Statistics, Global Strategy to improve Agricultural and Rural Statistics, 2016, capítulo 5
  2. Gazzarin e Lips, Gemeinkostenzuteilung in der landwirtschaftlichen Betriebszweigabrechnung - eine methodische Übersicht und neue Ansätze, Austrian Journal of Agricultural Economics and Rural Studies 27.3, 2018
  3. Conab, Norma Metodologia do Custo de Produção, Norma da Organização 30.302, Companhia Nacional de Abastecimento
  4. USDA Economic Research Service, Commodity Costs and Returns, Documentation of estimation methods
  5. Aranha, Dias e Ítavo, Proposta de Critério de Alocação de Custos Indiretos na Pecuária Bovina de Ciclo Completo, Revista de Economia e Sociologia Rural 54(4), 2016, páginas 653 a 666
O que este artigo cobre
Listar todo custo que serve a mais de uma atividade, escritório, contador, juros, impostos e galpão incluídos; escrever por qual base cada um se divide e por quê, antes da conta; distinguir base física de base que anda com o preço; datar e assinar a ficha; e usar o mesmo rateio nos dois anos que você compara.
O que ele não cobre
Qual base usar. A Rurivia não publica um critério de rateio recomendado, e a escolha é de quem conduz a fazenda. Também não calcula custo a partir de nota fiscal, não define a fronteira entre fazenda e casa, não diz se uma atividade deve ser encerrada e não compara sua fazenda com outra.
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Como citar este artigo

RURIVIA. Como ratear custos entre lavoura e pecuária na fazenda. [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/financeiro/criterio-de-rateio-declarado-antes/. Acesso em:


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