Critério de rateio é a regra escrita de por qual base cada custo comum se divide: horas, hectares, cabeças ou receita. Você a escreve antes de olhar qualquer resultado, para repartir cada custo entre as atividades da fazenda, como a soja e a recria. Recria é a fase do gado entre a desmama e a terminação. Uma fazenda de 600 hectares no sudoeste de Goiás tem soja e recria. Seus R$ 120.000 por ano de trator e galpão caem como R$ 72.000 na soja se você divide pelas horas de trator, e como R$ 90.000 se divide pela receita. São R$ 18.000 de diferença, sem mudar uma máquina. Para saber qual atividade se paga, escreva a base de cada custo comum primeiro e date a ficha. Calcule os resultados só depois.
Que custos da fazenda servem a mais de uma atividade?
Custo comum é a conta que paga mais de uma atividade e não tem nota fiscal ligada a uma só delas. A fazenda do exemplo tem quatro, mostrados na figura abaixo: o trator e o galpão, os juros do financiamento de custeio, o escritório e o contador, e os impostos da fazenda. Somam R$ 300.000 por ano. A depreciação, o valor pago por uma máquina ou construção distribuído pelos anos de uso, entra na primeira linha.
Cada um se esconde num lugar diferente. O honorário do contador sai por débito todo mês. Os juros ficam no extrato, no meio das parcelas do financiamento. O trator e o galpão foram pagos anos atrás, e nenhuma nota nova lembra deles. A Conab conta os juros de financiamento pagos para o custeio da atividade como custo de produção, ao lado da semente e do combustível.
Qual o tamanho da pilha? Em fazendas mistas dos Alpes suíços, os pesquisadores Gazzarin e Lips, da Agroscope, colocam os custos comuns em 60 a 70 por cento do custo total. Mesmo sem pagar o trabalho da própria família, a parte passa de 50 por cento. É uma região de montanha, com construções e máquinas caras, então a parte na sua fazenda será outra. Liste a sua: toda conta que paga mais de uma atividade, com as atividades que ela atende e as que ela nunca toca.
Por qual base cada custo comum se divide?
Por algo que acompanhe a natureza do custo. O manual da FAO sobre custo de produção agrícola fixa isso como regra para toda chave de rateio. Ele veda dois atalhos: nada de área de terra para despesa de gado que não pertence a um produto só, e nada de contagem de animais para despesa de lavoura do mesmo tipo. Para um trator usado em várias lavouras, o manual cita a área cultivada, as horas de uso ou as passadas em cada talhão como chaves possíveis. A Conab divide as construções por uma taxa de ocupação, o percentual de uso do bem por uma lavoura.
Dentro do rebanho a escolha também pesa. Aranha, Dias e Ítavo, num artigo de 2016 sobre a contabilidade da pecuária de corte, observam que o custo indireto costuma ser dividido por cabeça. Assim se cobra de um bezerro o mesmo que de uma vaca. No exemplo trabalhado por eles, a divisão por cabeça superavaliou os animais jovens e leves. Os autores propõem a unidade animal, que corresponde a 450 quilos de peso vivo. O exemplo foi feito no papel, com 230 animais, e só a direção do erro vale como lição.
Para a despesa geral sem ligação física com nenhuma atividade, como as despesas gerais do negócio, a FAO diz que é aceito dividir pela contribuição de cada atividade na margem líquida da fazenda inteira. Se a margem líquida não existe, aceita a margem bruta (receita menos os custos que variam com a produção) ou a receita bruta. A ficha da fazenda do exemplo usa base física em todas as linhas. Para cada uma das suas, escreva a base e uma frase de motivo.
Quanto a escolha da base mexe nos números?
O bastante para mudar o valor e, às vezes, qual atividade parece a boa. O manual da FAO traz um exemplo das Filipinas. Uma fazenda tem 3,50 hectares em três parcelas e um trator, e a pergunta é quanto do custo do trator vai para uma parcela de arroz de 2,00 hectares. Dividido pela área da fazenda toda, essa parcela carrega 57 por cento. Se antes você pergunta se o trator trabalhou nas outras parcelas e descobre que só trabalhou no arroz, a mesma parcela carrega 67 por cento. O trator fez o mesmo serviço nas duas contas, e os dez pontos mudaram por causa de uma pergunta feita antes de dividir.
A fazenda do exemplo mostra o mesmo em reais. Tem 400 hectares de soja e 200 de pasto para a recria, e a soja ocupou 150 das 250 horas de trator no ano.
Qual base anda quando o preço anda?
Toda base que é a receita. Gazzarin e Lips revisaram os métodos de ratear custo na fazenda e concluem que dividir pelo que cada atividade rende serve mal para análise, porque o nível do custo acaba fixado pelos preços de mercado. Eles listam como chaves físicas as horas de trabalho, as horas de trator, a área e as unidades de gado. Uma chave física mal escolhida erra do mesmo jeito todo ano, e então você acha o erro e o corrige.
Na fazenda do exemplo, a soja rendeu R$ 900.000 no ano 1 e a recria R$ 300.000. No ano 2 o preço da soja caiu e a soja rendeu R$ 600.000, enquanto a recria seguiu em R$ 300.000.
Métodos públicos também já trocaram de base e publicaram a troca. A documentação das estimativas de custo do USDA mostra o método antigo, que dividia a despesa geral da fazenda pelo valor da produção de cada cultura. Ao lado dele há um método posterior que divide os mesmos custos pelas margens brutas relativas. Os dois estão impressos, e o leitor vê o que mudou. É isso que torna utilizáveis as bases de receita e de margem. Marque na sua ficha todo custo que você divide assim e não compare dois anos através de uma troca como se nada tivesse mudado. O mesmo vale para o menor preço aceitável, o preço de equilíbrio, cuja linha de custo anda se o rateio segue a receita.
O que escrever primeiro, e em quanto tempo?
Uma tarde, com a lista dos custos comuns e doze meses de extrato sobre a mesa. Escolha um dia em que ninguém espera resposta sobre atividade nenhuma, porque a regra única é que quem escreve a base não calcula antes o resultado das atividades. A linha do trator pede a leitura do horímetro. Dois outros artigos desta biblioteca cobrem o resto. O custo de manutenção por máquina transforma a leitura em custo por hora, e conduzir a fazenda como negócio é o assunto da seção de gestão de fazendas.
Um rateio errado, mas escrito e datado, pode ser conferido e corrigido; o que ninguém escreveu, não.