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O solo mudou, ou mudou o laboratório?

O número do laudo pertence ao laboratório, ao extrator, à unidade, à profundidade e ao mês tanto quanto ao talhão. Com uma página por talhão e cada troca marcada, você compara um ano com o outro.

Publicado em Atualizado em 15 min
Neste artigo

O produtor rural que lê a queda do fósforo no laudo como perda de fertilidade pode comprar adubo que o solo não pede. Num exemplo, um produtor rural com 400 hectares de pasto em Xinguara, no sul do Pará, vê o fósforo cair de 9 para 8 miligramas por decímetro cúbico (mg/dm³). Ele aplica 25 kg de adubo fosfatado, medido como P2O5, por hectare. São 10.000 kg a R$ 12 por kg, ou R$ 120.000. Antes de definir qualquer dose, copie cada laudo numa página por talhão e trace uma linha onde mudou o laboratório, o extrator, a unidade, a profundidade ou o mês. Todos os valores deste exemplo são inventados.

O solo não mudou. Os 9 mg/dm³ do ano passado vieram da resina trocadora de ânions, e os 8 mg/dm³ deste ano vieram do Mehlich-1, usado pelo laboratório novo. Resina e Mehlich-1 são dois jeitos de o laboratório tirar o fósforo da amostra. Em 301 amostras de solo de Santa Catarina, o Mehlich-3 e a resina extraíram em média 12% e 11% mais fósforo que o Mehlich-1. Nove mg/dm³ pela resina correspondem, em média, a cerca de 8 mg/dm³ pelo Mehlich-1.

Quais talhões têm análise em dia, e há quanto tempo?

Ninguém responde antes de listar todos os talhões com a data da última coleta. Os laudos estão guardados, mas a lista quase nunca existe, e a resposta de memória esquece um talhão. No exemplo, os 120 hectares de pasto arrendados há dois anos nunca foram amostrados, porque o arrendatário achou que o dono tinha laudo e o dono achou que o arrendatário ia coletar. O talhão dividido ao meio quando a cerca mudou continua sendo amostrado como um só.

Não existe um intervalo único para todo talhão. A Embrapa manda repetir a amostragem a cada 3 a 5 anos em áreas com culturas perenes e uma vez ao ano em áreas sob cultivo intensivo. O intervalo da sua fazenda você escolhe com o seu agrônomo e escreve no alto da lista, onde cada data pode ser lida contra ele.

O intervalo também define quanto tempo uma mudança na fertilidade passa sem ser vista. Ela pode começar em qualquer dia entre duas análises, e por isso fica sem ser vista, em média, metade do intervalo.

Figura: Quanto tempo, em média, uma mudança no solo passa sem ser vista, conforme o intervalo entre análises. Fonte: conta da Rurivia com o intervalo de amostragem
Quanto maior o intervalo entre análises, mais tempo uma mudança passa sem ser vistaUma mudança no solo passa sem ser vista metade do intervalo entre análises: 2,5 anos com análise a cada 5 anos, 1,5 ano a cada 3 anos e meio ano a cada ano.Espera média até a mudança aparecer2,5 anosA cada 5 anosentre análises1,5 anoA cada 3 anosentre análises0,5 anoTodo anoentre análises

A mesma conta, em dias, está em quanto tempo você leva para saber que algo deu errado. Escreva a lista hoje: uma linha por talhão, com o nome, a data da última análise e os anos desde então.

Por que o mesmo solo dá dois números?

Uma análise de solo é duas coisas ao mesmo tempo: a solução que tira o nutriente da amostra, chamada extrator, e o modo como o laboratório mede o que saiu. Dois extratores dão números diferentes para o mesmo solo. No estudo de Santa Catarina, a diferença ainda mudou com a textura: o Mehlich-1 extraiu menos fósforo que os outros extratores em solo arenoso e mais em solo argiloso.

Figura: Fósforo extraído da mesma amostra por três métodos, em média, com o Mehlich-1 igual a 100. Fonte: Mumbach e outros, Revista Ceres, 2018
Mehlich-3 e resina extraíram mais fósforo que o Mehlich-1 nas mesmas amostrasEm 301 amostras de solo de Santa Catarina, com o Mehlich-1 igual a 100, o Mehlich-3 extraiu em média 112 e a resina trocadora de ânions extraiu 111.Fósforo extraído, Mehlich-1 igual a 100100Mehlich-1igual a 100112Mehlich-312% a mais111Resina11% a mais

Por isso a média de 11% não serve de fator de conversão. Ela vale para o conjunto das amostras, e o seu talhão pode ficar longe dela. Converter um resultado em outro não é trabalho de quem copia o laudo.

Sua parte é copiar o nome do extrator ao lado de cada resultado. Quando o laudo não traz o extrator, deixe em branco e escreva quem liga para o laboratório. Qual extrator usar, e o que o número significa, é trabalho do agrônomo que assina a recomendação.

Copio o número ou a classe (baixo, médio, bom)?

Copie o número. A classe é a escala de quem imprimiu o laudo. A Universidade de Minnesota escreve que o laboratório pode usar a faixa de valores que escolher. O mesmo guia diz que o número é um índice, e não a quantidade do nutriente disponível ou presente no solo.

No Brasil, a tabela da Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais (CFSEMG) mostra a distância. Para o fósforo pelo Mehlich-1, a classe depende do teor de argila do solo. O mesmo valor de 12 mg/dm³ é Bom com 60 a 100% de argila, Médio com 35 a 60%, e Baixo com 15 a 35% e com 0 a 15%.

Figura: Faixa da classe Bom para o fósforo pelo Mehlich-1, em mg/dm³, por teor de argila, e o valor de 12 mg/dm³. Fonte: CFSEMG (Alvarez V. e outros, 1999)
Os mesmos 12 mg/dm³ de fósforo caem na classe Bom só no solo mais argilosoA faixa Bom do fósforo pelo Mehlich-1 vai de 8,1 a 12,0 mg/dm³ com 60 a 100% de argila, de 12,1 a 18,0 com 35 a 60%, de 20,1 a 30,0 com 15 a 35% e de 30,1 a 45,0 com 0 a 15%. O valor de 12 mg/dm³ está na faixa Bom só na primeira.Faixa Bom do fósforo, em mg/dm³12 mg/dm³Argila de 60 a 100%8,1 a 12,0Argila de 35 a 60%12,1 a 18,0Argila de 15 a 35%20,1 a 30,0Argila de 0 a 15%30,1 a 45,0

A Embrapa Milho e Sorgo, na publicação com essa tabela, registra que para o fósforo Minas adota o Mehlich-1 e São Paulo, a resina, e por isso os critérios deixam de ser únicos. Um laudo de outro laboratório ou de outro estado pode imprimir outra classe para o mesmo número. Copiado com a unidade e com o extrator, o número ainda se compara no ano seguinte. A classe, não.

O que mais precisa ficar igual de um ano para o outro?

A unidade, a profundidade, o mês e o laboratório. Os laudos brasileiros trazem os cátions trocáveis, como o cálcio, em mmolc/dm³ ou em cmolc/dm³: os valores em mmolc/dm³ são 10 vezes os valores em cmolc/dm³. Sem a unidade, a mesma amostra aparece como 2 num laudo e como 20 noutro. Copie a unidade como está impressa, na mesma linha do número, e não converta para a que você conhece.

Figura: A mesma amostra, no cálcio do exemplo, em duas unidades. Fonte: Embrapa, Documentos 266
A mesma amostra aparece como 2 num laudo e como 20 noutroNo exemplo, uma amostra tem 2 cmolc/dm³ de cálcio. Num laudo em mmolc/dm³, a mesma amostra aparece como 20, dez vezes o valor.Uma amostra, duas unidades2cmolc/dm³valor menor20mmolc/dm³valor 10 vezes maior

A profundidade também faz parte do número. A Embrapa manda coletar de 0 a 20 cm nas culturas anuais e, em pastagens e culturas perenes, nas camadas de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm. O NRCS, o Serviço de Conservação de Recursos Naturais dos Estados Unidos, pede, nos testes de saúde do solo, a mesma profundidade, de 0 a 15 cm, em cada coleta. Os guias divergem nos centímetros; o que vale é cada laudo trazer a sua profundidade e ela se repetir. Um laudo de 0 a 20 cm e outro de 20 a 40 cm do mesmo pasto comparam duas camadas diferentes de solo.

O NRCS pede ainda a mesma época do ano em cada coleta e o mesmo laboratório ao longo do tempo, porque laboratórios têm instrumentos ou protocolos diferentes que afetam os resultados. Copie a data da coleta com o mês, e não só o ano, para que a diferença entre dois anos possa ser atribuída ao solo ou ao calendário. A Embrapa acrescenta que convém evitar a coleta logo depois de calagem ou adubação; se houve uma das duas, escreva a data na página.

O que copio primeiro, e quem assina a página?

Abra o laudo mais recente do talhão sobre o qual alguém perguntou por último e copie os seis itens abaixo. Cada um responde a uma pergunta que alguém vai fazer depois, e o item em branco deixa essa pergunta aberta.

Os seis itens copiados do laudo e o que quebra quando cada um fica em branco
Item na página Copiado de O que quebra quando fica em branco
Data da coleta Cabeçalho do laudo Nada pode ser chamado de atual ou vencido, e dois laudos não se ordenam
Profundidade coletada Cabeçalho do laudo, ao lado do número da amostra Duas camadas diferentes de solo são comparadas como se fossem uma
Laboratório Cabeçalho ou timbre do laudo Ninguém para consultar, e nenhum jeito de saber como o laboratório mede
Extrator ao lado de cada resultado Tabela de resultados, junto ao nutriente Ninguém sabe se dois números do mesmo talhão se comparam
Número e unidade como impressos Tabela de resultados, copiados sem conversão Um valor numa unidade é lido contra uma faixa escrita noutra
Nome de quem leu e a data Escrito à mão por quem leu os resultados Ninguém na fazenda responde pelo resultado

Quando o talhão tem laudos anteriores, copie cada um embaixo como bloco novo com a sua data, e trace uma linha onde mudou o laboratório, o extrator, a unidade, a profundidade ou o mês. No exemplo, a linha cai entre 2025 e 2026, porque o laboratório e o extrator mudaram, e os dois números de fósforo ficam em lados opostos dela.

Figura: A página de um talhão do exemplo, com a linha traçada entre os dois laudos. Valores inventados
Página de um talhão com dois laudos e uma linha entre elesLaudo de março de 2025: Laboratório 1, extrator resina, mg/dm³, 0 a 20 cm, março, fósforo 9. Laudo de março de 2026: Laboratório 2, extrator Mehlich-1, mg/dm³, 0 a 20 cm, março, fósforo 8. O laboratório e o extrator mudaram, e por isso uma linha separa os dois laudos.Página do talhão, exemploLaudo de março de 2025LaboratórioLab. 1ExtratorResinaUnidademg/dm³Profundidade0 a 20 cmMêsmarçoFósforo9Linha: laboratório e extrator mudaramLaudo de março de 2026LaboratórioLab. 2mudouExtratorMehlich-1mudouUnidademg/dm³Profundidade0 a 20 cmMêsmarçoFósforo8

Quem leu o laudo assina o pé da página com a data e anota qual recomendação o laudo sustentou. Escrever as condições ao lado da medida é o mesmo hábito de uma avaliação de compactação com data. Uma página assim para cada talhão é um registro que outra pessoa encontra e lê, e é nele que se apoia a gestão de fazendas. A seção de produção desta biblioteca reúne os outros registros de produção.

Deixe em branco o que o laudo não traz. Um número escrito de memória parece resposta e ninguém consegue conferi-lo, enquanto um branco com nome e data ao lado diz quem vai ligar.

Procedência

Deriva de
  1. Mumbach, Oliveira, Warmling e Gatiboni, Quantificação de fósforo por Mehlich 1, Mehlich 3 e Resina Trocadora de Ânions em solos com diferentes teores de argila, Revista Ceres 65(6), 2018
  2. Veloso, Viégas, Oliveira e Botelho, Amostragem de Solo e Planta para Análise Química, Embrapa Amazônia Oriental, Documentos 266, 2006
  3. Embrapa Milho e Sorgo, Solos: Interpretação de Resultados de Análise de Solo, com a tabela da CFSEMG (Alvarez V. et al.), 1999
  4. Kaiser e Eliason, Understanding the soil test report, University of Minnesota Extension, revisado em 2018
  5. USDA Natural Resources Conservation Service, Soil Health Technical Note No. 470-16, Soil Health Testing to Support Conservation Planning, maio de 2025
O que este artigo cobre
Quais talhões têm análise em dia e há quanto tempo, por que o mesmo solo dá dois números em dois extratores, por que se copia o número e nunca a classe (baixo, médio, bom), o que mais precisa ficar igual de um ano para o outro, e a página que registra cada laudo e cada troca.
O que ele não cobre
O que qualquer valor significa, se um resultado está adequado, qual extrator, método ou dose usar, e como converter um resultado de um método para outro. Ler o laudo e assinar a recomendação é trabalho do agrônomo, e a Rurivia não entra nisso. Também ficam de fora como coletar a amostra e qual intervalo de análise adotar.
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Como citar este artigo

RURIVIA. O solo mudou, ou mudou o laboratório? [S. l.], 27 ago. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/producao/laudo-de-solo-por-talhao/. Acesso em:


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