Em 8 de junho de 2026, o gerente de uma fazenda de soja perto de Cornélio Procópio, no norte do Paraná (exemplo), crava duas estacas num talhão de 60 hectares. Escarificar é romper a camada compactada, e o talhão está na vez. Uma estaca marca a faixa pior, a outra um trecho junto à cerca onde nenhuma máquina passa. Em cada uma, o gerente enfia um penetrômetro, uma haste com mostrador que indica a dureza do solo, e anota a data e os dias desde a última chuva. A escarificação custa R$ 10.800 (valor suposto), e sem essas leituras ninguém sabe depois se compensou. Avalie o serviço só contra uma leitura feita antes, num ponto marcado.
A ferramenta é uma ficha de solo, uma página por área (uma mancha compactada, um terraço ou um canal). Ela tem uma linha para cada leitura, cada serviço e a data da próxima leitura. Fazer uma leitura é ir ao ponto marcado e voltar com números anotados.
Quanto dura o efeito de uma escarificação?
Depende do que se mede, e por isso uma única leitura depois do serviço não mostra se o efeito ainda vale. Na Embrapa Trigo, em Coxilha (RS), pesquisadores escarificaram parcelas de um Latossolo argiloso em plantio direto em datas de 0 a 36 meses antes da medição. Mediram todas as parcelas na mesma safra. O efeito durou 6 meses na densidade e na porosidade, 18 meses na resistência à penetração e 24 meses na infiltração da água.
| O que se mediu | Quanto durou o efeito | Fração de um calendário de 36 meses |
|---|---|---|
| Densidade e porosidade do solo | 6 meses | Um sexto (17%) |
| Resistência à penetração | 18 meses | Metade (50%) |
| Infiltração da água | 24 meses | Dois terços (67%) |
Isso vale para um solo e um experimento, e o seu talhão pode manter a mudança por mais ou menos tempo. No norte do Paraná, num levantamento com 145 proprietários e usuários do plantio direto, 88% disseram usar um implemento (escarificador, arado ou grade) a cada 3 anos. Isso é escarificar por calendário. Um calendário fixado de antemão não acompanha um efeito que muda com o solo, o tráfego de máquinas e a chuva depois da passada.
O que a escarificação por calendário rende?
Às vezes muito pouco, e só leituras no seu talhão mostram em qual caso você está. Um experimento longo da Embrapa Soja em Londrina (PR), num solo muito argiloso, rodou de 1988 a 2007. Escarificar a cada três anos no plantio direto aumentou a produtividade da soja em 7 de 14 safras sob rotação e em só 1 de 19 safras sob sucessão. Na sucessão, a mesma sequência de culturas se repete todo ano. A escarificação reduziu a produtividade em 2 safras da rotação e em 5 da sucessão. A circular cita esses resultados como dados não publicados.
Os autores acrescentam que a resposta das plantas parece depender da espécie, do solo, do clima e do grau de compactação inicial. O último fator é o que a leitura de antes registra. Na fazenda do exemplo, as leituras nas duas estacas, comparadas com a produtividade daquela safra, é que colocam a escarificação numa das três colunas.
A sequência de culturas pesou nesse resultado, e por isso vale conferir se o talhão seguiu o plano de rotação na mesma comparação. Uma safra melhor depois da passada também não resolve. Comparar a produtividade do talhão com a média da fazenda ou da região em cada safra separa o efeito do ano do efeito do talhão.
O que torna a leitura de depois comparável com a de antes?
Comece pela água no solo, porque uma semana seca pode mostrar compactação que não existe. A Embrapa Cerrados avisa que medir com o solo seco pode dar leituras muito altas e um falso diagnóstico de compactação. Ela sugere medir depois de um período chuvoso, com o solo perto da capacidade de campo. Capacidade de campo é o solo que absorveu toda a água que retém e escoou o resto. A Embrapa Soja acrescenta que a umidade do solo na hora da avaliação deve ser medida também, principalmente para comparar glebas, camadas ou épocas.
Depois, o ponto. Marque um ponto na área e um ponto de comparação junto à cerca, onde o solo não é mexido, e leia os dois no mesmo dia.
Um educador da Cornell Cooperative Extension, no estado de Nova York, usou esse par num pasto. Ele dividiu a leitura da cerca pela leitura do pasto, de modo que solo mais duro dá razão menor, para controlar o tipo de solo e a umidade que muda. Em agosto de 2020, as razões do pasto e de um quadrado de teste cortado como feno caíram juntas, e ele não soube explicar por quê. A única medida que deixou de acompanhar foi a umidade do solo, e ele escreve que ainda faltam respostas para a razão ser uma ferramenta confiável. O que se aproveita é anotar a umidade ao lado do número.
Duas leituras feitas de jeitos diferentes não se comparam, e por isso a ferramenta e a profundidade ficam na mesma linha do número. O resultado de laboratório segue a mesma regra: laudos de solo copiados numa página por talhão só se comparam quando alguém anota o laboratório, o método e o mês ao lado de cada número.
Terraço feito é terraço que funciona?
Nem sempre. Terraço é uma crista com canal atravessada na encosta, que segura a enxurrada para a água infiltrar em vez de descer o declive. Pesquisadores brasileiros acompanharam a reforma de terraços num talhão de 32,4 hectares em Bela Vista do Paraíso, no norte do Paraná, em 2016. Dos 15 terraços de base larga, reformou-se um e retirou-se o seguinte, e ficaram 7. A seção do canal, que define quanta água o terraço comporta, variou de 2,71 a 0,73 m² de um terraço para outro.
A equipe simulou quanta água os terraços precisavam armazenar com o solo infiltrando 30, 40 e 50 milímetros por hora. Com 30, pelo menos três terraços ficaram em cerca de 49% da eficiência necessária, situação que os autores chamam de preocupante. Com 40, o talhão inteiro passou de 76% para 97%, mas os terraços deficitários continuaram em cerca de 63%, e só com 50 chegaram a cerca de 87%.
Os autores concluem que a reforma pode não controlar a erosão se outras práticas não elevarem a taxa de infiltração da água no solo. Eles citam a compactação excessiva entre as condições que tornam provável uma erosão significativa. Isso liga o terraço à mancha compactada, porque os dois dependem de a água entrar no solo depressa.
No levantamento do norte do Paraná, 74% consideram o plantio direto suficiente para controlar a erosão sem terraço, e 81% dizem que retirar os terraços facilita o manejo do solo. Na fazenda do exemplo, o terraço que já existe no talhão ganha uma linha na ficha, com a data da última vistoria. “Não se sabe” é uma primeira anotação honesta.
O que escrevo na ficha e quando volto?
Uma ficha por área, com três tipos de linha.
| Linha | O que entra | Para que serve |
|---|---|---|
| Leitura | A data; o ponto marcado e o ponto de comparação; quem foi; a ferramenta e a profundidade; os dias desde a última chuva; uma frase sobre o que se encontrou | Sem o ponto e a condição do solo, a leitura de depois não tem com o que se comparar |
| Serviço | O que será feito; em qual leitura se apoia; o prazo com mês e ano; quem responde; feito ou não feito, escrito no prazo | Sem a leitura por trás, ninguém sabe dizer depois se o serviço mudou alguma coisa |
| Próxima data | A data da próxima leitura, ou da próxima caminhada pelo terraço, e quem vai | Sem data marcada de antemão, a leitura de depois não acontece |
Uma linha de serviço sem leitura por trás não se avalia, mas ela ainda data o serviço, e a primeira leitura depois dele vira o ponto de partida. Uma manhã por área basta, com uma pá, um caderno e o celular.
Para a primeira volta, a menor duração de Coxilha, seis meses, serve só como referência. Se no ponto marcado o efeito já sumiu, a próxima escarificação se apoia nessa leitura, e não no terceiro ano. Decidir quando ler, quem vai e o que precisa aparecer antes de mandar fazer outro serviço é gestão de fazenda aplicada a uma mancha de solo. Os outros registros talhão por talhão estão na biblioteca de produção.