Conte quantas decisões grandes da sua fazenda só você toma hoje. Quanto mais delas dependem só de você, maior o risco para o futuro da fazenda, e esse risco pesa mais do que a sua idade ou a falta de testamento. Vale conferir sete decisões: o que criar e plantar, compra de máquinas, obras, compra ou venda de terra, quando e onde vender, contratação e se alguém da família vai trabalhar fora. Se você passa uma semana no hospital em plena colheita, a venda da safra fica parada, porque só você sabe quando e para quem vender. O banco liga, e ninguém mais sabe responder.
A idade não revela esse risco. Numa pesquisa de 2023 de economistas da Universidade Purdue com 403 produtores rurais dos EUA, 55,1% tinham plano de sucessão escrito, e ter ou não o plano quase não variava com a idade do dono. A pesquisa mediu plano escrito, não quem decide, mas ser jovem não garantia nada no papel. Um dono de quarenta e cinco anos que decide tudo sozinho corre o mesmo risco que um de setenta: se ele faltar, ninguém mais foi indicado para decidir.
Por que o risco está em quem decide, e não em quem herda?
O risco é uma decisão grande que só uma pessoa toma, sem mais ninguém indicado para tomá-la. Quando essa pessoa viaja ou adoece, a decisão fica esperando, e o serviço que depende dela também. O testamento não resolve isso. No testamento você escreve quem fica com a terra depois da sua morte; nele não há uma linha sobre quem decide o que plantar na próxima safra, nem sobre quem assina quando o comprador liga esta semana.
Por isso o instrumento certo é um plano de negócio, e não um plano de herança. Sappey e colegas revisaram, em 2012, a sucessão nas fazendas da Austrália, numa revista australiana de contabilidade e negócios. Eles definem o planejamento da sucessão como um plano de negócio feito antes da aposentadoria ou da morte dos donos, separado do planejamento da herança, que quase sempre se resume ao testamento. Na revisão deles, o comando das decisões passa aos poucos, em etapas. O trabalho, então, é passar as decisões de propósito, enquanto você ainda está aqui para ensinar.
Quais decisões ficam paradas quando só uma pessoa pode tomá-las?
Nem toda decisão carrega esse risco. Boa parte do serviço diário, como tratar o gado, ordenhar ou pulverizar, pode seguir uma semana sem você, se a equipe conhece a rotina. Sappey e colegas listam sete decisões cujo comando passa de uma geração para a outra, e em cada uma a pergunta é quem decide hoje.
| Decisão | O que abrange |
|---|---|
| Rebanho e lavoura | O que criar e o que plantar |
| Máquinas | Comprar colhedora, trator ou outro equipamento grande |
| Obras novas | Açude, sistema de bombeamento, galpão |
| Terra | Comprar mais terra ou vender uma parte |
| Venda | Quando e onde vender a produção |
| Contratação | Se contrata gente, e quem |
| Renda de fora | Se alguém da família vai trabalhar fora da fazenda |
O teste de cada uma é simples: se você não estivesse aqui amanhã, outra pessoa conseguiria tomar essa decisão, e tomar bem? Onde a resposta é não, a decisão depende só de você, e é ela que se passa primeiro. Algumas, como a hora de vender, podem custar dinheiro em poucos dias; outras, como a compra de terra, esperam meses, mas ninguém mais consegue resolvê-las.
Por que o plano de sucessão fica sempre para depois?
Quem toma todas as decisões sozinho sente pouca pressão para escrever como elas são tomadas, porque, de onde está, nada está dando errado. O adiamento raramente é preguiça. Num estudo publicado em 2009 no Journal of Extension, revista americana de extensão rural, Kaplan e colegas analisaram nove famílias de produtores rurais cujo planejamento da sucessão tinha travado. Eles viram que assuntos de família mal resolvidos atrapalhavam a conversa sobre sucessão, mas nove famílias são poucas para dizer se isso é comum.
Esperar chegar a certa idade também não ajuda. Na pesquisa da Purdue, as fazendas com plano escrito tendiam a usar também outras boas práticas de gestão, como contrato de arrendamento escrito e procedimento padrão para tarefas de rotina, qualquer que fosse a idade do dono. O plano escrito anda junto com o hábito de anotar as coisas, e não com a idade.
O que o plano não decide por você?
Escrever quem pode decidir no seu lugar em cada decisão não é o mesmo que escolher quem assume a fazenda um dia. Ao montar essa lista, você não escolhe sucessor nem supõe que alguém queira assumir; isso se pergunta a cada pessoa da família. Num guia de sucessão da extensão rural da Universidade de Wisconsin-Madison, Joy Kirkpatrick e um colega apontam os valores, a visão e as intenções da família como a etapa-chave que costuma ser esquecida. Na prática, cada pessoa conta às outras gerações o que pretende fazer, e o resto do plano se monta sobre essas respostas.
O plano também tem um limite claro. Herança, partilha do patrimônio, impostos e estrutura societária ou holding são trabalho de advogado e contador. O que fica com você é a gestão: quem decide o quê, e quando cada decisão passa para outra pessoa. Separar as duas coisas deixa você passar a gestão agora, enquanto a parte do patrimônio anda no ritmo dela, mais devagar.
Qual é o primeiro passo que não espera ninguém morrer?
A primeira coisa a escrever não é o plano inteiro. É a resposta a uma pergunta: se amanhã você não pudesse decidir, quem assina, quem orienta a equipe, quem fala com o banco e quem tem as senhas? Chame isso de resposta provisória: ela cobre o intervalo até a família sentar para planejar. Leva uns quinze minutos, não fala de morte, e é a parte que precisa funcionar sem aviso.
Depois, tire essa resposta da cabeça e leve para uma reunião. Jessica Groskopf, da Universidade de Nebraska-Lincoln, recomenda uma reunião de negócio regular entre as pessoas que tomam as decisões grandes, mensal ou trimestral. Nela ficam por escrito a função de cada um, a forma de decidir e o que foi combinado. Ela trata a reunião como costume normal de qualquer empresa, não como medida de crise. Se a sua família ainda não faz essa reunião, a resposta provisória é um bom primeiro assunto.
Por onde começar
Leva cerca de uma hora e uma folha de papel.
Para contar em um minuto quantas decisões dependem só de você, o mini-diagnóstico de sucessão é um teste curto on-line sobre as mesmas sete decisões. Para ir desta folha a um plano completo, o artigo sobre o plano de sucessão escrito trata de quais decisões entram no plano e de quando cada uma passa.