Você hoje
Você acorda e toca a fazenda no automático. Faz o que sempre fez, atende o que aparece, apaga o incêndio do dia. Se alguém te perguntar, agora, o que você quer que a fazenda seja para você daqui a três anos, a resposta vem vaga: “ir bem”, “melhorar”, “não passar aperto”. É uma direção sentida, não uma coisa que você consiga conferir depois. E é aqui que a gestão começa, porque não existe boa decisão sem um destino.
Por que este passo existe
Gestão é conseguir o que você quer com o que você tem. Repare no começo da frase: o que você quer. Sem isso escrito, nenhuma decisão é boa ou ruim, porque não há régua para julgar. Vender a produção mais cedo é acerto para quem quer dormir tranquilo e erro para quem quer arrancar o último centavo do preço. Comprar mais terra é acerto para quem quer crescer e peso morto para quem quer folga. A mesma decisão muda de valor conforme o destino, e o destino é seu.
E o destino quase nunca é só dinheiro. Numa pesquisa feita para o governo inglês em 2008, 93% dos produtores rurais disseram que realmente apreciam o modo de vida no campo, e 79% concordaram que agricultura é também maximizar lucro. As duas coisas convivem na mesma pessoa; o que muda de um produtor rural para outro é a ordem entre elas. Por isso este passo não te entrega um objetivo pronto: ele te faz declarar o seu, e colocar em ordem.
Este é o Passo 0, e não o Passo 1, porque ele não depende de nenhum dado da fazenda. Você pode fazê-lo hoje, à mesa da cozinha, antes de anotar a primeira operação. Ele é a bússola dos outros seis passos.
Meta não é sonho
Aqui está a parte que quase todo mundo pula. “Quero qualidade de vida” é um sonho, uma direção. Não é uma meta. A prova é simples: daqui a um ano, como você vai saber se conseguiu? Qualidade de vida não tem como ser conferida assim, do jeito que está dita. Um sonho aponta o rumo; uma meta é o sonho traduzido em algo que você consegue olhar e dizer “cheguei” ou “não cheguei”, sem discussão.
O trabalho deste passo é fazer essa tradução. Você parte dos seus sonhos, que são legítimos e vêm primeiro, e transforma o mais importante deles numa meta que dá para conferir. A ferramenta para isso tem um nome e cabe num verso de papel: a meta SMART.
Como fazer: a meta SMART, e por que cada parte importa
SMART são cinco exigências que separam uma meta de um sonho. A palavra é uma sigla em inglês, e cada letra é uma das cinco exigências; por isso o termo em inglês vai entre parênteses ao lado de cada uma. Uma meta que falha em qualquer uma delas volta a ser sonho. Vamos uma a uma, com o porquê de cada uma, porque é o porquê que faz você não pular nenhuma.
Específica (Specific). Diga exatamente o quê, não “melhorar a fazenda”. “Melhorar” cabe em tudo e não obriga a nada. Troque por algo com contorno: “saber quanto me custa produzir a minha unidade” (a saca, ou a arroba, ou o litro), ou “ter uma folga de caixa que me tire da venda no desespero”. Por quê: uma meta vaga não diz o que fazer amanhã de manhã; uma meta específica já aponta o primeiro movimento.
Mensurável (Measurable). Coloque um número ou um fato que você consiga verificar. É a exigência que mais falta, e a que transforma o sonho em meta. “Qualidade de vida” não se confere; “um domingo livre por semana e duas semanas fora da fazenda por ano” se confere no calendário. Por quê: sem medida, você nunca sabe se chegou, e um destino aonde você não sabe se chegou não orienta decisão nenhuma.
Alcançável (Achievable). A meta tem de caber no que você tem hoje, ou no que dá para construir no prazo. Se você não tira um único dia de folga, mirar dois meses de férias no ano que vem só serve para você desistir em março. Comece por um domingo por mês e suba a régua depois. Por quê: meta fora do alcance não motiva, desanima, e uma meta que desanima é pior que meta nenhuma.
Relevante (Relevant). A meta tem de servir ao que de fato importa para você, o topo da sua lista. Não adianta uma meta caprichada de crescimento se o que você mais quer é tempo com a família. Por quê: energia é escassa na fazenda; gastá-la numa meta que não é a sua é o desperdício mais silencioso da gestão.
Com prazo (Time-bound). Marque uma data. “Algum dia” não pressiona ninguém. “Até o fim do próximo ciclo de produção” (a próxima safra, ou o próximo lote de animais terminados) coloca a meta no tempo. Por quê: sem prazo, a meta fica sempre para depois, e depois não chega.
Um exemplo, do sonho à meta
Sonho: “quero mais tranquilidade financeira.” Vira meta assim: “quero terminar o próximo ciclo com dinheiro em caixa suficiente para cobrir três meses de contas da fazenda, para não precisar vender no pior preço só porque a conta venceu.” Específica (folga de caixa), mensurável (três meses de contas), alcançável (você ajusta o tamanho conforme a sua realidade), relevante (é a tranquilidade que você pediu) e com prazo (o próximo ciclo). Agora é uma meta: daqui a um ciclo você olha o caixa e sabe se chegou.
Por que ter disciplina, e voltar
Uma meta escrita e esquecida na gaveta não muda nada. Ela só funciona se você voltar a ela. Neste percurso, o seu objetivo não fica no Passo 0: ele volta no Passo 3, quando você monta o plano do próximo ciclo, porque o plano existe para servir à meta, e volta no Passo 6, quando você compara o que aconteceu com o que queria e vê se andou na direção certa. Escrever a meta é o começo; revisitá-la a cada ciclo é o que a mantém viva. Uma vez por ano, releia a sua lista: o que era importante pode ter mudado, e tudo bem mudar, desde que você saiba que mudou.
Os cinco rumos, para colocar em ordem
Antes da meta SMART vem a bússola: o que importa para você, em ordem. Cinco rumos cobrem quase todo produtor rural. Não existe ordem certa; existe a sua.
- Renda da família. O que a fazenda precisa gerar para sustentar quem depende dela.
- Tempo e qualidade de vida. Folga, saúde, presença em casa. Na pesquisa inglesa de 2008, o modo de vida foi mais valorizado do que o lucro.
- Continuidade e sucessão. Deixar a fazenda de pé para quem vem depois, e preparar quem vai assumir.
- Crescimento. Mais área, mais atividade, mais produção.
- Proteção contra uma quebra. Aguentar um ano ruim de clima ou de preço sem perder tudo.
Ordene os cinco do que mais importa ao que menos importa. É essa ordem que vai desempatar as suas decisões nos próximos passos.
Erros comuns, e como evitar
- Parar no sonho. Escrever “quero ir bem” e achar que definiu um objetivo. Traduza sempre em algo conferível, com número e data.
- Muitas metas de uma vez. Cinco metas ao mesmo tempo é nenhuma. Escolha uma ou duas do topo da lista para o próximo ciclo.
- Mirar o que você não controla. “Quero que o preço suba” ou “quero um ano sem seca” não são metas, são torcida. Mire o que está na sua mão: a folga de caixa, o registro em dia, a decisão tomada no prazo.
- Meta sem data. Sem prazo, ela nunca começa. Marque um ciclo, um ano, uma safra.
- Meta que só você entende. Se você não consegue explicar a meta para outra pessoa de um jeito que ela saiba dizer se você chegou, a meta ainda está vaga.
Por onde começar
Pegue uma folha. Escreva os cinco rumos e coloque em ordem, do que mais importa ao que menos importa. Depois olhe o primeiro da lista e faça uma pergunta só: “como eu saberia, daqui a um ciclo, que cheguei nisto?” A resposta a essa pergunta, com um número e uma data, é a sua primeira meta SMART. Uma basta para começar.
Pronto quando
Você tem, por escrito: os cinco rumos em ordem de prioridade, e pelo menos o primeiro deles traduzido numa meta SMART, com um número que dá para conferir e uma data. O teste final é este: se você entregasse esse papel a alguém de fora, essa pessoa conseguiria dizer, no prazo, se você chegou ou não. Se conseguiria, você tem uma meta. Se não, ainda é sonho, e vale mais um pouco de trabalho aqui.
O que este passo não cobre
Aqui você declara o que quer, não como chegar lá; o caminho é o resto do percurso, do Passo 1 ao Passo 6. E definir o seu objetivo é uma decisão sua, de dono: não é aconselhamento financeiro nem jurídico, que, se o seu caso pedir, é assunto para um profissional habilitado.