Pular para o conteúdo
Diagnóstico
BibliotecaProdução

O que o ensaio da sua lavoura testa de verdade este ano?

Um estimulante foliar de R$ 60 por hectare, em valor de exemplo, custa R$ 30.000 por safra em 500 hectares de soja. Antes do plantio, escreva uma ficha com a pergunta, a comparação, a medida, os pontos e quem lê o resultado.

Publicado em Atualizado em 13 min
Neste artigo

Um ensaio na lavoura é uma faixa que recebe uma mudança, plantada ao lado de uma faixa da sua prática atual, que não recebe nenhuma. Num valor de exemplo de R$ 60 por hectare, um estimulante foliar custa R$ 30.000 por safra em 500 hectares de soja. Lida de memória, a faixa tende a confirmar o que você já acreditava, e o produto continua na lista. Com a ficha escrita antes do plantio, você pode ler a faixa e descobrir que a resposta é não. Escreva essa ficha do ensaio na hora que antecede a saída da plantadeira.

O que vai na ficha do ensaio?

A ficha do ensaio é uma página com cinco linhas, preenchida abaixo para um estimulante foliar na soja. Nenhuma das cinco linhas escolhe o que testar. Você já sabe o que quer experimentar neste ano: uma cultivar, um produto, uma regulagem de máquina. O que raramente se escreve é a pergunta que o ensaio deve responder.

Figura: As cinco linhas da ficha do ensaio, preenchidas para o exemplo da soja em Ponta Grossa. Valores de exemplo
As cinco linhas da ficha do ensaioFicha do ensaio de um estimulante foliar na soja. Pergunta: o estimulante paga o que custa em produtividade da soja. Comparada com: a prática atual, sem mudança, na mesma safra, em terra parecida. Medida: sacas de 60 quilos por hectare, pesadas na balança, fixadas antes do plantio. Onde: quatro pares, dois no talhão A e dois no talhão B, em um mapa simples. Quem lê: uma pessoa com nome, ficha datada e assinada.Ficha do ensaio: estimulante, soja1. PerguntaO estimulante foliar paga o que custaem produtividade da soja?2. Comparada comPrática atual, sem mudança, namesma safra, em terra parecida3. MedidaSacas de 60 kg por hectare, pesadasna balança, fixadas antes do plantio4. OndeQuatro pares: dois no talhão A, doisno talhão B, em um mapa simples5. Quem lêUma pessoa com nome, e a fichadatada e assinada

Numa fazenda de soja em Ponta Grossa (PR), a primeira linha diz: o estimulante foliar paga o que custa em produtividade da soja? A Embrapa inclui esse tipo de produto entre os temas de ensaio da soja: produtos promotores do rendimento de grãos, como hormônios, estimulantes e fertilização foliar. A extensão da Universidade Estadual de Ohio abre o seu roteiro de ensaios com uma pergunta concisa e testável.

Confira se a resposta é algo que você consegue medir. Se não dá para pesar nem contar, espere uma discussão na colheita, e não um resultado.

Esses R$ 30.000 são o motivo de a pergunta vir primeiro. O ensaio existe para decidir se você gasta de novo na safra seguinte.

Contra o que você compara a mudança?

Contra a sua prática atual, sem mudança, na mesma safra e em terra parecida. A Embrapa indica a inclusão de um tratamento controle, a testemunha, geralmente o padrão do agricultor. A lavoura do ano anterior não serve de testemunha, porque o ano é outro.

Em Ponta Grossa, a soja rendeu em média 4.240 kg/ha em 2023 e 3.822 kg/ha em 2024, segundo o IBGE. São 418 kg/ha a menos de um ano para o outro, cerca de 7 sacas de 60 kg por hectare. É a média do município, e não a de uma fazenda. Se você comparasse a faixa de 2024 com a lavoura de 2023, a diferença do ano entraria na conta como se fosse do produto.

Figura: Produtividade média da soja em Ponta Grossa (PR) em dois anos seguidos. Fonte: IBGE, tabela 1612; média do município
A média do município mudou 418 kg/ha de um ano para o outroSoja em Ponta Grossa, média do município segundo o IBGE: 4.240 quilos por hectare em 2023 e 3.822 quilos por hectare em 2024. A diferença é de 418 quilos por hectare, cerca de 7 sacas, entre um ano e outro.Soja em Ponta Grossa (PR), kg/haColhida em 20234.240Colhida em 20243.822Diferença: 418 kg/ha, cerca de7 sacas por hectare, de um ano ao outro

A segunda regra, do roteiro de Ohio, é que só a variável em teste deve mudar. Em Ponta Grossa, a segunda linha diz: soja sem estimulante, a mesma cultivar, o mesmo preparo, a mesma data de semeadura, em faixas ao lado das tratadas.

Muita gente divide o talhão ao meio. O boletim C.O.R.N., de Ohio, observa que a divisão não considera mudanças de tipo de solo, baixadas e morros. O guia da Universidade Estadual do Mississippi avisa que a variação natural pode não se dividir igualmente entre as metades, e que as conclusões podem não valer. A Embrapa pede para evitar áreas com muita variação de tipo de solo, inclinações e limites irregulares. Escreva a comparação na ficha com palavras, com a cultivar e o preparo nomeados.

Quantos pares, e onde ficam?

Um par é uma faixa com a mudança e a faixa testemunha ao lado dela. Repetir o par é fazer repetições. Um par só pode cair em terra melhor, e a mudança leva o crédito que o solo mereceu. O guia da Flórida é claro: parcela grande não compensa a falta de repetição.

As fontes diferem pouco na contagem. A Embrapa indica até quatro repetições por ensaio. O boletim C.O.R.N. exige ao menos três e incentiva quatro. O roteiro de Ohio recomenda cinco, com três a quatro como mínimo. O guia do Mississippi considera quatro a seis blocos suficientes para a maioria dos ensaios, e o da Flórida recomenda quatro. Quatro pares cabem em todas as faixas, e você escreve quatro na ficha.

O lugar importa tanto quanto o número. A Embrapa pede faixas menores de cada tratamento em vários pontos do talhão. O guia do Mississippi aconselha colocar as repetições em talhões separados quando for possível. Ele também manda usar mapas de produtividade, levantamento de solo e o que você sabe do talhão para achar a variação antes de marcar as faixas. Em Ponta Grossa, a quarta linha diz: dois pares no talhão A e dois no talhão B, cada par em terra parecida.

Figura: Quatro pares em dois talhões, em um mapa simples
Quatro pares de faixas em dois talhõesO talhão A tem o par 1 e o par 2. O talhão B tem o par 3 e o par 4. Cada par é uma faixa da prática atual e uma faixa com a mudança, lado a lado.Talhão APar 1Par 2Talhão BPar 3Par 4Prática atualMudança

Desenhe o mapa na própria ficha. A Embrapa indica que o mapa com a localização dos tratamentos seja compartilhado com os envolvidos. O guia do Mississippi sugere contar as linhas de cada tratamento, para a faixa não se perder na lavoura alta.

O que medir na colheita, e dá para confiar numa diferença pequena?

Fixe a medida antes de saber a resposta. O guia do Mississippi manda decidir de antemão quais dados respondem à pergunta e deixar o resultado se apoiar neles. A medida deve ser algo que você pesa. O boletim C.O.R.N. lista os meios: um vagão com balança, uma carreta graneleira com balança ou um monitor de produtividade calibrado.

Julgar a faixa por saúde da lavoura, aparência ou verdor é muito mais difícil de avaliar com objetividade. Um julgamento de aparência também se curva com facilidade ao que você esperava ver. Em Ponta Grossa, a terceira linha diz: sacas de 60 kg por hectare, pesadas na balança, um peso para cada faixa.

Figura: O que entra na terceira linha da ficha e o que fica de fora
Medidas que entram na ficha e medidas que ficam de foraNa ficha: sacas por hectare, pesadas em vagão com balança, carreta graneleira com balança ou monitor de produtividade calibrado. Fora da ficha: saúde da lavoura, aparência e verdor, muito mais difíceis de avaliar com objetividade. A medida é fixada antes do plantio, sem saber a resposta.Na fichaSacas por hectare, pesadas em vagãocom balança, carreta graneleira combalança ou monitor de produtividadecalibradoFora da fichaSaúde da lavoura, aparência e verdor:muito mais difíceis de avaliar comobjetividadeFixada antes do plantio, sem saber a resposta

Uma diferença pequena pede cuidado. Entre 2023 e 2024, a média do município mudou 418 kg/ha de um ano para o outro. Uma diferença de poucos quilos entre duas faixas pode vir do solo e do ano, e não do produto. Quatro pares mostram se a diferença se repete em todos os pares ou aparece em um só.

A Embrapa lembra, sobre pesquisa de longo prazo em áreas consolidadas, como a adubação em plantio direto, que é comum não se comprovar a hipótese em um ou dois ciclos de cultivo. Por isso a ficha tem um espaço para o resultado de cada safra, e a segunda safra confere a primeira. Como fazer a estatística fica fora deste artigo. A ficha precisa da medida e do número de pares.

Mais duas regras do guia da Flórida entram na ficha. Mantenha um registro detalhado dos procedimentos e do manejo durante o ensaio, e não mude o protocolo depois que as faixas estão plantadas. Um ensaio ajustado no meio da safra pode ser feito para concordar com quase qualquer coisa.

Quem lê o resultado, e o que escrever primeiro?

Dê o nome de uma pessoa. O guia da Flórida é escrito para agentes de extensão que fazem ensaios com agricultores. Ele aponta uma falha que não é agronômica: é muito comum o agente esperar que o agricultor confira o ensaio, enquanto o agricultor espera a visita do agente. A mesma lacuna pode abrir entre o produtor rural e o gerente contratado. A Embrapa lista, entre as dificuldades, a falta de alinhamento da equipe que faz o manejo da propriedade. As faixas são colhidas com o resto do talhão, e a pergunta fica sem resposta.

A quinta linha tem um nome, uma data e uma assinatura, escritos antes do plantio. A Embrapa indica discutir o desenho do ensaio com a equipe da fazenda no planejamento. Se você guarda a produtividade de cada talhão, ano a ano, escreva a resposta do ensaio ali, sob aquele talhão e aquele ano.

Quem lê depende de como o ensaio chegou à sua terra. Quando o seu agrônomo propôs, quem lê costuma ser o agrônomo. O que o agrônomo decide trata de quais decisões são de quem. Quando um fornecedor ou uma empresa levou o ensaio, quem lê o resultado e quem guarda os dados vão num termo escrito, assinado antes de o ensaio entrar. Esse termo é um documento à parte desta ficha.

Escreva a pergunta primeiro, porque todas as outras linhas dependem dela. Depois siga a lista.

Figura: A ficha do ensaio em seis passos, da primeira linha à safra seguinte
Os seis passos da ficha do ensaioAntes do plantio: escreva a pergunta de sim ou não; escreva contra o que a mudança é comparada; fixe a medida e a regra; desenhe o mapa dos pares; nomeie quem lê, date e assine. Depois da colheita: escreva a resposta e o que muda na safra seguinte.Antes do plantio1. Escreva a pergunta de sim ou não2. Escreva contra o que compara3. Fixe a medida e a regra4. Desenhe o mapa dos pares5. Nomeie quem lê, date e assineDepois da colheita6. Escreva a resposta e o que muda

Escrever antes do plantio o que o ensaio deve responder, e quem responde, faz parte da gestão de fazendas.

Procedência

Deriva de
  1. Pires, Brandão, Resende e outros, Indicações metodológicas para a realização de ensaios on-farm no âmbito da Agricultura de Precisão, Documentos 201, Embrapa
  2. IBGE, Produção Agrícola Municipal, tabela 1612 do SIDRA, soja (em grão), Ponta Grossa (PR), 2023 e 2024
  3. Wallau, Rios e Blount, Planning and Establishing On-Farm Field Trials, EDIS SS-AGR-447/AG447, University of Florida IFAS Extension
  4. Hill, Baker e Czarnecki, Adding RIGOR to On-Farm Trials, Simple Steps to Data-Driven Decision Making, Publicação P3930, Mississippi State University Extension, 2023
  5. Gauci, Fulton, Lindsey, Hawkins e Lee, Precision Agriculture Tools for On-Farm Research, FABE-558, Ohio State University Extension, 2022
  6. Dill e Hawkins, Making On-Farm Trials Easy, C.O.R.N. Newsletter 2022-12, Ohio State University Extension
O que este artigo cobre
Escrever uma ficha de ensaio antes do plantio: a única pergunta de sim ou não que o ensaio responde, a faixa testemunha com a prática atual, quantos pares de faixas e onde ficam, o que exatamente você vai medir e como, e o nome de quem lê o resultado na colheita.
O que ele não cobre
O que testar, qual cultivar, produto ou dose, e como conduzir a agronomia, que são decisões suas e do seu agrônomo. Fica de fora a estatística dos resultados de ensaio e o termo escrito com a empresa de fora que leva um ensaio para a fazenda, que tem artigo próprio.
Publicado
Atualizado
Erro encontrado
Aponte um erro e o artigo é corrigido com nota do que mudou.

Como citar este artigo

RURIVIA. O que o ensaio da sua lavoura testa de verdade este ano? [S. l.], 5 set. 2026. Disponível em: https://rurivia.com/pt-br/biblioteca/producao/o-que-o-ensaio-da-sua-lavoura-testa/. Acesso em:


Continue lendo

Produção

Estande de milho: fixe o dia e o método da contagem

A população semeada é um número que você já tem. As plantas que nasceram, você precisa contar, no mesmo dia e pelo mesmo método em toda safra.

13 de set. de 2026
Produção

Perda na colheita da soja: escreva o limite antes de colher

Os limites publicados de perda na colheita da soja diferem entre si. Um limite escrito antes da colheita, conferido por uma contagem em cada talhão, mostra qual talhão passou e que parte da máquina perdeu o grão.

11 de set. de 2026
Produção

A produtividade do talhão caiu: cultivar, talhão ou ano?

Uma colheita baixa no talhão do fundo parece culpa da cultivar. Muitas vezes foi o ano ou o talhão, e só a série do próprio talhão, comparada com a média da fazenda em cada safra, separa um do outro.

7 de set. de 2026
Produção

Como saber se a rotação de culturas está funcionando

Conferir se a cultura prevista entrou no talhão responde se o plano foi cumprido, mas não se ele serviu. Para isso o plano precisa dizer, talhão a talhão, que problema a troca de cultura deve combater, quando o resultado vai ser medido e o que entra se a semeadura atrasar.

7 de set. de 2026

Gestão de Fazendas

Se este artigo fosse uma planta, a gestão da fazenda seria a lavoura inteira.

Planejar, organizar, dirigir e controlar: as quatro funções, o que cada uma decide, e um exemplo da fazenda para cada uma, reunidas numa página só.