A revisão deste trator foi feita nas horas que o manual manda? Um produtor rural de Lucas do Rio Verde (MT) pergunta isso antes de comprar uma máquina usada, e quem financia pergunta antes de liberar o crédito. Pela norma ASAE D497.7, reparo e manutenção de um trator 4x4 somam 76,8% do preço novo em 16.000 horas. Num trator de exemplo de R$ 1.000.000, são R$ 768.000. Nenhum estudo calcula uma revisão atrasada. Um trator está no intervalo de fábrica só se o óleo, o filtro e o diesel baterem com as condições impressas ao lado das horas. Compare o manual, as notas fiscais do óleo e o horímetro, e escreva uma data para cada diferença.
Que condições vêm impressas ao lado das horas?
Intervalo de revisão é o número de horas de motor entre uma revisão e a seguinte, contado no horímetro. O intervalo do manual vale só nas condições impressas ao lado dele. No guia de manutenção da linha de tratores 8RT, a John Deere marca a troca do óleo do motor a cada 500 horas. Esse intervalo estendido só vale com óleo Plus-50 II, filtro John Deere e diesel com menos de 15 mg/kg de enxofre. Se faltar qualquer uma das condições, a Deere manda trocar óleo e filtro a cada 250 horas.
A Kubota faz o mesmo no manual do operador do B26TL, um trator compacto. Quando o diesel tem mais de 0,5% de enxofre, a Kubota orienta o proprietário a reduzir em 50% o intervalo de troca do óleo do motor e do filtro. Na tabela da Kubota, essa troca está em 200 horas; com diesel de muito enxofre, ela vence às 100.
Abra o manual da sua máquina e veja que condição vem impressa ao lado da troca de óleo.
O diesel do seu tanque está dentro do limite?
Teor de enxofre é o peso de enxofre em cada quilo de diesel, escrito em mg/kg, o que equivale a partes por milhão (ppm). O limite da Deere, 15 mg/kg, é 15 ppm. O da Kubota, 0,5%, é 5.000 ppm, mais de 300 vezes maior. Um diesel com 300 ppm de enxofre fica fora do limite da Deere e bem dentro do da Kubota. Duas máquinas abastecidas no mesmo tanque podem ficar uma dentro e outra fora do limite. Vale o limite do manual de cada máquina.
No Brasil, a ANP define o diesel vendido, e dois tipos interessam aqui. A Resolução ANP nº 968/2024 fixa o S10 em no máximo 10 mg/kg de enxofre e o S500 em no máximo 500 mg/kg. O S10 cabe no limite da Deere. O S500 passa dele, mas cabe no limite de 0,5% da Kubota. A mesma resolução manda a ANP preparar o plano para encerrar o S500 de uso não rodoviário; o texto não traz o calendário nem cita trator.
O manual da Kubota tem ainda uma segunda linha. Na tabela de classe de óleo para mercados fora da América do Norte, ela usa 0,05% (500 ppm) para separar o diesel de baixo enxofre do de alto enxofre. Com diesel de alto enxofre, manda trocar o óleo CF-4, CG-4, CH-4 ou CI-4 em intervalos mais curtos, aproximadamente a metade. O S500 tem no máximo 500 ppm, que é essa linha. Diga ao fornecedor que escreva na nota fiscal o teor de enxofre de cada carga. Com esse número, você sabe de que lado está.
O que colocar ao lado do manual?
Quatro papéis bastam: a tabela de revisões do manual, a nota fiscal do óleo, a nota fiscal do diesel e o horímetro. No manual do Kubota B26TL, os itens vêm agrupados pela leitura do horímetro. Abaixo está parte da tabela do Kubota B26TL, com uma coluna a mais que o manual não tem: a condição que muda o intervalo. É essa condição que se perde quando uma tabela assim é copiada para a parede da oficina.
| Intervalo | Itens de exemplo do manual do Kubota B26TL | Condição que muda o intervalo |
|---|---|---|
| A cada 50 horas | Engraxamento, verificação do sistema de partida, torque dos parafusos de roda, torque dos parafusos do chassi | Vale o número impresso |
| A cada 100 horas | Limpeza do elemento primário do filtro de ar, limpeza do filtro de combustível, tensão da correia do ventilador, pedal do freio | Vale o número impresso |
| A cada 200 horas | Óleo do motor, filtro do óleo do motor, filtro de óleo da transmissão hidrostática, convergência das rodas dianteiras | Pela metade, no óleo do motor e no filtro, quando o enxofre do diesel passa de 0,5% |
| A cada 400 horas | Fluido de transmissão, filtro do óleo hidráulico, troca do elemento do filtro de combustível | Vale o número impresso |
| A cada 800 horas | Óleo da carcaça do eixo dianteiro, folga das válvulas | Vale o número impresso |
| A cada 1.000 horas ou 1 ano | Troca dos elementos primário e secundário do filtro de ar | Vale o número impresso |
| A cada 2.000 horas ou 2 anos | Limpeza do sistema de arrefecimento, troca do líquido de arrefecimento | Vale o número impresso |
Esses intervalos contam horas de horímetro, e não meses, a não ser nas linhas que trazem os dois, como 1.000 horas ou 1 ano. Um trator que passou o ano parado no galpão não chegou à revisão de 100 horas.
Se você compra ou financia um trator usado, exija do vendedor os mesmos papéis. A extensão rural da Universidade de Wisconsin-Madison avisa que um trator usado pode vir sem o manual do operador, que o fabricante costuma ter. Ela aconselha perguntar, antes da compra, o calendário de manutenção atual e as revisões previstas para breve.
Outro par de papéis é cruzado em combustível comprado contra hora trabalhada. Mais artigos estão na seção de Produção.
Quanto custa uma revisão atrasada?
Nenhum estudo calcula quanto custa uma revisão atrasada. O que já foi medido é a conta inteira de reparo e manutenção ao longo da vida de um trator, o gasto que a revisão em dia busca segurar. Num estudo de 2013, Calcante e colegas, pesquisadores de engenharia agrícola na Itália, citam a norma ASAE D497.7: o reparo e a manutenção de tratores 4x4 somam 76,8% do preço de lista em 16.000 horas. Preço de lista é o preço do trator novo. Nos tratores italianos, eles acharam 48,6% em 12.000 horas, contra 43,2% do modelo americano mais recente.
Os autores atribuem a diferença ao manejo, às condições de operação, à cultura, ao solo e ao clima. Por isso, as porcentagens não servem de previsão para a sua máquina. O calendário de revisões é a parte que você define com antecedência, no papel, antes de qualquer quebra.
A extensão rural da Universidade de Wisconsin-Madison estima a manutenção e o reparo anuais de um trator usado em 0,75 a 1,50 dólar por hora de uso. Isso é de 10% a 15% do custo total de operação. O valor é difícil de prever com exatidão. Para saber quanto o reparo e a manutenção custaram a você, some o gasto de manutenção de uma máquina a partir das notas fiscais.
O custo que não aparece na nota da oficina são os dias em que a máquina fica parada. Cecchini e colegas fizeram um levantamento com operadores italianos de grade rotativa, um implemento de preparo do solo, e o publicaram em 2021 na revista Sensors. Encontraram quebras pelo menos uma vez por ano, com tempo médio de reparo de 2 a 3 dias. Dois dias perdidos num mês parado são um incômodo. Os mesmos dois dias no meio do plantio custam o que custa plantar atrasado, e esse valor não está em nota.
Qual é a primeira anotação, e para que dia?
Comece pela máquina de que você mais depende na janela mais apertada do ano, como a plantadeira no plantio da soja ou a colhedora na colheita do milho. Você precisa do manual, das notas fiscais do óleo e do diesel e de uns dez minutos. Quem compra ou financia faz os mesmos seis passos com os papéis do vendedor.
Ou a máquina entra na oficina num dia marcado, ou alguém escreve que o atraso foi aceito, e quem aceitou. Acompanhe as horas de atraso lendo o horímetro num dia fixo, com uma pessoa certa para informar o resultado. Sem isso, o número é comentado com quem está perto da máquina e a revisão segue atrasada por semanas. Essas semanas são o tempo até descobrir: quanto tempo se leva para saber que algo deu errado.
Conferir contra um padrão escrito vale além das máquinas, e o guia de gestão de fazendas deste site trata disso no resto da fazenda.